{"id":1121,"date":"2026-02-25T23:59:43","date_gmt":"2026-02-26T02:59:43","guid":{"rendered":"https:\/\/mensagensperdidas.com\/?page_id=1121"},"modified":"2026-02-25T23:59:43","modified_gmt":"2026-02-26T02:59:43","slug":"fim-de-expediente","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mensagensperdidas.com\/index.php\/fim-de-expediente\/","title":{"rendered":"Fim de Expediente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">O rel\u00f3gio j\u00e1 batia 19h32min, e Ricardo Albuquerque Pereira estava cansado. Cansado e com fome. Aquele dia foi particularmente dif\u00edcil no escrit\u00f3rio; todos estavam estressados, e o chefe, Paulo Duarte Ant\u00f4nio Vieira, estava uma pilha de nervos. Diziam que era por causa de seu recente div\u00f3rcio, e outros, mais maldosos, falavam que a raz\u00e3o de sua raiva era constipa\u00e7\u00e3o. Talvez fossem as duas coisas, mas, de qualquer modo, Ricardo n\u00e3o se importava; para ele o dia foi apenas complicado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Perto de seu ponto de \u00f4nibus, havia uma dessas lanchonetes de franquia famosa. Eram lanches, para padr\u00f5es brasileiros, bem caros, mas era in\u00edcio de m\u00eas e seu vale-refei\u00e7\u00e3o estava cheio. Ricardo podia se dar o luxo de gastar dinheiro com um bom sandu\u00edche de proced\u00eancia duvidosa. Entrou feliz no recinto, e todos o olharam com estranha indiferen\u00e7a. Foi inc\u00f4modo, mas o mo\u00e7o ignorou aquela recep\u00e7\u00e3o bizarra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como n\u00e3o havia totens para autoatendimento, Ricardo foi direto ao caixa. A atendente, Marcela Padr\u00e3o Oliveira, tinha uma face que expressava cansa\u00e7o e des\u00e2nimo. Era um rosto an\u00eamico e for\u00e7ava um sorriso de falsa simpatia. Todos estavam cansados, e talvez o dia para o pessoal da lanchonete tenha sido dif\u00edcil tamb\u00e9m. Ricardo relevou e fez seu pedido. Em poucos minutos, j\u00e1 estava degustando seu saboroso sandu\u00edche.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Enquanto comia, percebeu que uma ou outra pessoa o olhava de modo esquisito. Ricardo achou que era coisa de sua cabe\u00e7a, at\u00e9 que um homem magrelo sentou-se ao seu lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Est\u00e1 tudo bem? \u2014 Perguntou o jovem ao estranho, que continuou o olhando fixamente. Ricardo se mexeu, desconfort\u00e1vel.  \u2014 Homem, est\u00e1 tudo bem? Voc\u00ea quer um peda\u00e7o do meu sandu\u00edche? Quer que eu te pague alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea devia ter vergonha! \u2014 Come\u00e7ou o estranho \u2014 Olha s\u00f3 isso! Tudo sujo! Voc\u00ea devia saber como comer! Olha! Olha! Tudo caindo a\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Rapaz! E o que voc\u00ea tem a ver com isso?! Eu como do jeito que eu quiser! E tem outras pessoas comendo da mesma forma que eu!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas olha a sujeira na tua bandeja! Olha! Voc\u00ea acha que \u00e9 assim que se morde um sandu\u00edche! Vergonha, hein!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Amigo, por favor, me d\u00ea licen\u00e7a, sim?! Tive um dia chato demais e voc\u00ea est\u00e1 me incomodando! Ser\u00e1 que voc\u00ea pode sair?! \u2014 O estranho come\u00e7ou a chorar em sil\u00eancio. Ricardo ficou de boca aberta, sem acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 isso?! A gente vem aqui e tenta ajudar o pr\u00f3ximo, e tudo o que a gente consegue \u00e9 grosseria?! Ser\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o poderia me ouvir?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Olha, eu s\u00f3 quero comer meu lanche em paz! Voc\u00ea est\u00e1&#8230; \u2014 O estranho levantou-se repentinamente e correu para fora da loja, em prantos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Todos olharam, com clara reprova\u00e7\u00e3o, para Ricardo, que ficou mais uma vez de boca aberta, sem entender nada. Revirou os olhos, dando de ombros para aquela situa\u00e7\u00e3o bizarra. Ent\u00e3o, Deise Camargo, uma jovem que estava com seu namorado, falou para Ricardo: \u2014 Voc\u00ea \u00e9 uma vergonha! Olha s\u00f3 a maldade que voc\u00ea fez com aquele pobre coitado! Ele s\u00f3 queria te ajudar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mo\u00e7a, e eu com isso? Eu s\u00f3 quero comer meu lanche!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ei! Ei! Ei! \u2014 interveio o namorado, Lucas Sampaio Correa \u2014 Olha como tu fala com minha namorada!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Oras! Ela vem se meter onde n\u00e3o foi chamada!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Grosso! \u2014 Gritou Deise, que tamb\u00e9m saiu chorando da loja. Lucas deu seu olhar mais amea\u00e7ador para Ricardo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea deve ser um monstro mesmo! Amor! Espera!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ricardo n\u00e3o tinha for\u00e7as para ficar aborrecido; estava cansado demais para isso. Mais uma vez deu de ombros e tentou voltar a comer. Quando estava perto de terminar seu lanche, Marcela lhe tocou o ombro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Olha! Calma! \u2014 Ricardo apenas tinha virado o rosto para ver quem era \u2014 Vejo que o senhor est\u00e1 meio exaltado e est\u00e1 causando um certo&#8230; desconforto nos clientes aqui. Est\u00e1 vendo aquela m\u00e3e ali com sua filha? As duas est\u00e3o com medo do senhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas como assim? Ser\u00e1 que eu estou parecendo mesmo um ogro? \u2014 Ricardo come\u00e7ou a duvidar de seu estado mental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Calma, senhor! Voc\u00ea n\u00e3o precisa agir desse jeito!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas de que jeito?! Meu Deus do c\u00e9u! O que est\u00e1 acontecendo?! Eu s\u00f3 queria comer meu lanche em paz!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Olha, senhor, vou ter que pedir para o senhor se retirar da loja. Assim n\u00e3o d\u00e1 mais. Por favor&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era a terceira vez que Ricardo ficava de boca aberta. Estava em choque. Levantou-se, meio sem gra\u00e7a, e saiu para o seu ponto de \u00f4nibus. Viu num canto a Deise, que chorava copiosamente nos bra\u00e7os de Lucas. Aparentemente, ela repetia, com vis\u00edvel raiva: &#8220;Aquele monstro!&#8221; .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Por sorte, seu \u00f4nibus n\u00e3o demorou muito para vir. O motorista, assim que viu Ricardo subir, perguntou: \u2014 Dia dif\u00edcil?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Dia estranho, cheio de gente maluca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Amigo, estranho seria se o dia estivesse normal, com gente s\u00e3. \u2014 Ricardo achou esquisita a coloca\u00e7\u00e3o do motorista, que logo continuou: \u2014 V\u00ea s\u00f3! Outro dia disseram que teve uma invas\u00e3o alien\u00edgena na Terra! V\u00ea se pode! Trabalho todo dia, desde as 04 da manh\u00e3 at\u00e9 as 04 da noite! E t\u00f4 aqui, levando e trazendo gente bizarra! V\u00e1! V\u00e1 sentar, meu jovem! Porque o piloto aqui t\u00e1 com pressa!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ricardo foi se sentar ao lado de uma senhorinha, dona Jacinta Gon\u00e7alves, mas ela logo se levantou e foi para outro lugar. O jovem come\u00e7ou a imaginar que seu rosto deveria estar completamente transtornado. Afinal de contas, um dia dif\u00edcil de trabalho pode deixar qualquer um com uma apar\u00eancia bestial. Mas aquilo n\u00e3o fazia sentido; outras pessoas tamb\u00e9m estavam cansadas, e elas pareciam normais. Ent\u00e3o Ricardo pensou no que o motorista falou sobre invas\u00e3o alien\u00edgena. Aquilo era o c\u00famulo do absurdo. Tudo bem que teve algumas not\u00edcias sobre uma crise mundial h\u00e1 alguns meses, mas isso tamb\u00e9m era normal; o mundo est\u00e1 sempre em crise. Mas, alien\u00edgenas&#8230; isso era demais. Enquanto pensava nisso tudo, acabou adormecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Acordou faltando apenas umas tr\u00eas paradas para descer. O \u00f4nibus estava quase vazio e parecia ter atravessado o pa\u00eds inteiro. Fez sinal e desceu, pontualmente, \u00e0s 21h32min. Olhou o rel\u00f3gio e suspirou. S\u00f3 conseguia pensar no belo banho que tomaria e na sua cama macia. No dia seguinte, seria um novo expediente, mais um dia semelhante a todos os outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rel\u00f3gio j\u00e1 batia 19h32min, e Ricardo Albuquerque Pereira estava cansado. Cansado e com fome. Aquele dia foi particularmente dif\u00edcil no escrit\u00f3rio; todos estavam estressados, e o chefe, Paulo Duarte Ant\u00f4nio Vieira, estava uma pilha de nervos. 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