{"id":919,"date":"2026-02-20T22:25:57","date_gmt":"2026-02-21T01:25:57","guid":{"rendered":"https:\/\/mensagensperdidas.com\/?page_id=919"},"modified":"2026-02-20T22:26:56","modified_gmt":"2026-02-21T01:26:56","slug":"o-vigia-da-biblioteca","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mensagensperdidas.com\/index.php\/o-vigia-da-biblioteca\/","title":{"rendered":"O Vigia da Biblioteca"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">1<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os gatos devem ser sempre a mesma coisa, inclusive aqueles de natureza celestial. O Senhor Gato\u2014Merz, o Bibliotec\u00e1rio, nunca lhe dera um nome melhor\u2014descansava pregui\u00e7osamente sobre uma pilha de livros velhos e empoeirados, e olhava com patente desinteresse para Merz e seus assistentes. Recebia, vez ou outra, um carinho aqui e outro acol\u00e1, e bocejava, desejando um pouco mais de sono reparador. De repente, sem mais nem menos, saltava e ia perambular por entre as estantes infinitas da Biblioteca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Senhor Gato j\u00e1 estava l\u00e1 quando os primeiros humanos descobriram a chamada Biblioteca dos Mundos. Ningu\u00e9m sabe ao certo quem ergueu aquele lugar, ou quem juntou tanto conhecimento de origem incerta. O que todos diziam era que o gato, provavelmente, pertencia aos fundadores da Biblioteca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Pelo fato de aquele lugar ser bastante peculiar\u2014uma conflu\u00eancia no meio da Estrada dos Mundos, uma verdadeira encruzilhada c\u00f3smica\u2014, ningu\u00e9m estranhou o tempo de vida do Senhor Gato. S\u00e9culos se passaram e o bichano continuava o mesmo, com seu pelo cinza brilhante. Toda vez que passava pelos humanos, estes sentiam uma esp\u00e9cie de temor e respeito, como se aquele ser fosse algo superior. Por causa disso, muitos tinham medo de estud\u00e1-lo. No entanto, Merz, quando assumiu o cargo de Bibliotec\u00e1rio Chefe, se afei\u00e7oou ao bicho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Era claro que o Senhor Gato gostava de Merz e os dois se entenderam bem. De algum modo o Bibliotec\u00e1rio aprendeu a entender o gato, por\u00e9m, era mais prov\u00e1vel que o Senhor Gato tenha se feito entender. Logo se tornou comum ver Merz conversando e filosofando para o bichano, que o ouvia como aquela m\u00e3e que ouve o balbuciar de um beb\u00ea. Mas tamb\u00e9m era comum ver Merz calado por horas, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a em tom de concord\u00e2ncia, na frente do Gato. Quando isso acontecia, alguns dos assistentes diziam ouvir um leve ronronar ecoar no ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A amizade de Merz com o Senhor Gato gerou bons frutos para aqueles que estudavam a Biblioteca dos Mundos. Livros escritos em l\u00ednguas desconhecidas passaram a ser traduzidos, e outros conhecimentos sobre a Estrada dos Mundos e sobre a Exist\u00eancia foram revelados para aqueles humanos, que apenas come\u00e7avam a sua jornada. Entretanto, o Senhor Gato n\u00e3o sabia quem construiu aquela Biblioteca; ele simplesmente encontrou um lugar interessante e decidiu ficar por l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:55px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Gato era um explorador por natureza. Fazendo o que sempre fez, saiu de seu lugar de descanso e se p\u00f4s a percorrer as estantes. Era comum esse tipo de atitude, mas havia algo mais. Seus olhos verdes perscrutavam cada canto daquele lugar, como se procurasse por algo. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa rastejaria para dentro da Biblioteca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ningu\u00e9m sabia o real tamanho da Biblioteca dos Mundos, nem mesmo o Senhor Gato, que viveu por Eras naquele lugar. Por\u00e9m, o bichano desconfiava da exist\u00eancia de outras entradas, e isso o preocupava. Desde a Rebeli\u00e3o n\u00e3o se tinha not\u00edcias dos Condenados, mas o Senhor Gato intu\u00eda que alguns dos Ca\u00eddos encontrariam uma forma de escapar do Vazio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Naquele dia, em sua ronda, o Senhor Gato foi para bem longe. Alguma coisa estava diferente no ambiente e os corredores come\u00e7aram a ficar um pouco mais escuros. O bichano chegou a dar um miado, perguntando se havia algu\u00e9m ali, mas n\u00e3o escutou nada; apenas sentiu o ar pesado. Caminhou com leveza e cuidado e teve a impress\u00e3o de sentir um odor acre. Esgueirando-se por entre as estantes e deslizando como \u00e1gua, encontrou um novo \u00e1trio, mas todo arruinado. A entrada para os outros corredores estava escura, e os livros, corro\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Senhor Gato se moveu como uma sombra e farejou o ar, que parecia podre. Afinou os seus ouvidos para escutar at\u00e9 pensamentos, e ent\u00e3o ouviu: \u2014 <em>Fome. Fome. Fome. <\/em>\u2014 E o que se seguiu foi o som de criaturas rastejando e mastigando. O bichano sentiu asco e quis vomitar, por\u00e9m, foi percebido por sabe-se l\u00e1 o que. Uma sombra densa e suja, com cinco olhos brancos e esbugalhados, apareceu e empurrou o gato para longe, gritando de forma desesperada. O Senhor Gato, se recuperando do susto, correu atr\u00e1s da entidade, mas a perdeu de vista no meio do breu.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">2<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ap\u00f3s aquele encontro, o Senhor Gato ficou mais vigilante. Evitava, a todo custo, conversar com Merz e se deitava sempre de frente para o corredor que levava para o \u00e1trio abandonado. Ningu\u00e9m entendia aquela atitude que o felino passou a tomar, mas, tamb\u00e9m, ningu\u00e9m se importava muito. Apenas Merz percebeu que algo estava fora do lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ent\u00e3o, certa vez, enquanto o Gato se lambia, ouviu-se um grito de nojo vindo de um dos corredores. Todos foram para l\u00e1 e se horrizaram com o que viram: centenas de insetos e vermes se alimentando dos livros e dos rolos das estantes. Ningu\u00e9m soube o que fazer naquela situa\u00e7\u00e3o, pois, al\u00e9m de ter sido repentina, aquilo nunca acontecera. Merz ficou chocado ao ver a cena e ordenou que se isolasse a \u00e1rea para evitar que aquelas coisas se espalhassem pelo resto do acervo. No entanto, assim que terminou de dar a ordem, sentiu seu corpo dormente e sua cabe\u00e7a ficou confusa; isso tamb\u00e9m aconteceu com os outros assistentes. Ent\u00e3o, sem mais e nem menos, aqueles homens e mulheres come\u00e7aram a se alimentar daquelas criaturas asquerosas. Merz s\u00f3 n\u00e3o participou do nojento banquete porque o bichano o puxou para fora dali.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Merz estava completamente fora de si, se debatendo e tentando se livrar do Senhor Gato a todo custo. Vendo que o Bibliotec\u00e1rio n\u00e3o se recuperaria, o bichano o p\u00f4s para dormir e saiu para ca\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">As criaturas asquerosas estavam se espalhando rapidamente pela Biblioteca. Os assistentes de Merz haviam se transformado em torres grotescas de mofo e de coisa apodrecida, e o cheiro de coisa morta empestava o lugar. O som dos insetos e vermes rastejando e mastigando incomodava profundamente o Senhor Gato, que j\u00e1 estava com seus pelos eri\u00e7ados de raiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Senhor Gato tinha consci\u00eancia de que a entidade ainda se escondia no \u00e1trio abandonado, e que aquelas criaturas asquerosas eram apenas uma esp\u00e9cie de ap\u00eandice digestivo\u2014um tipo de boca que a <em>coisa<\/em> projetava para se alimentar \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u00c0 medida que se aproximava do lugar esquecido, mais o fedor e a opress\u00e3o aumentavam. Aquela fala repetitiva, que dizia &#8220;<em>Fome. Fome. Fome.&#8221; <\/em>estava mais alta, como se existisse uma esp\u00e9cie de satisfa\u00e7\u00e3o maligna. O Senhor Gato, enfurecido, ignorou todo o nojo que sentia e ca\u00e7ou o ser naquela penumbra cheia de trevas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Gato n\u00e3o foi percebido em nenhum momento, pois a entidade estava em \u00eaxtase, com suas longas bocas tubulares esticadas, que se transformavam em insetos e vermes. O bichano saltou em cima daquela sombra nefasta e, usando suas garras de a\u00e7o, a cortou no meio. O urro do monstro foi terr\u00edvel e o ch\u00e3o rachou; os olhos brancos daquela <em>coisa<\/em> fitaram, com patente horror, o Gato, que j\u00e1 desferia outro ataque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Completamente mutilada, a entidade tentou se arrastar para algum lugar escuro, mas o Senhor Gato continuava a fati\u00e1-la sem d\u00f3. Completamente destro\u00e7ado, o monstro murmurou por clem\u00eancia, mas o felino sabia que a qualquer momento aquela <em>coisa<\/em> se recomporia, pois era de natureza imortal. O Gato n\u00e3o parou de acuar a criatura, que se viu obrigada a sair por onde entrou. Por\u00e9m, do lado de fora da Biblioteca dos Mundos, o bichano continuou machucando e afastando a <em>coisa<\/em>, at\u00e9 chegar pr\u00f3ximo a uma passagem de aspecto sombrio e medonho. Estavam diante do Vazio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Pode ser que, apenas por um pequeno momento, o Gato teve pena daquele monstro. Aquela entidade j\u00e1 foi bela um dia, mas sua corrup\u00e7\u00e3o e loucura, al\u00e9m da maldi\u00e7\u00e3o sofrida, a deturparam. Sua natureza animalesca e cheia de v\u00edcios apagou todo tra\u00e7o de bondade e lucidez que um dia tivera, e agora era uma for\u00e7a maldita, cheia de vontade de destrui\u00e7\u00e3o. O Senhor Gato se lembrou dos Dias Antigos e das escolhas feitas, ent\u00e3o, sem pestanejar, sibilou e gritou, ordenando que a criatura se lan\u00e7asse ao Vazio novamente.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">3<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Merz acordou com uma baita dor de cabe\u00e7a. O Senhor Gato estava ali, bem \u00e0 sua frente, lambendo uma das patas. O cheiro de podre ainda estava no ar e uns poucos sobreviventes apareceram. Estavam todos em frangalhos. O Bibliotec\u00e1rio fez men\u00e7\u00e3o de falar algo, mas o olhar do Gato o fez calar. Ent\u00e3o, outros gatos surgiram pela Biblioteca, e trouxeram outras coisas com eles. Merz e os outros sobreviventes n\u00e3o souberam dizer bem o que eram, pois perceberam presen\u00e7as poderosas, que pareciam ter forma de gente gigante. Todos que restaram sentiram que n\u00e3o precisavam se preocupar com aquilo; o pior j\u00e1 havia passado. Merz, esbo\u00e7ando um sorriso, abra\u00e7ou o seu amigo felino, que recebeu bem o gesto de carinho. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Desde aquele dia, outros gatos celestiais passaram a habitar a Biblioteca dos Mundos. N\u00e3o s\u00f3 eles, mas outros seres de natureza superior tamb\u00e9m. Estes, os humanos n\u00e3o conseguem compreender bem, a n\u00e3o ser que queiram ser vistos e entendidos. Merz elegeu outros dez Bibliotec\u00e1rios Chefes para coordenar outras partes daquela Biblioteca gigantesca, e definiu procedimentos padr\u00e3o para o caso de crises, sejam elas bizarras ou n\u00e3o. Merz continuou sendo o principal chefe por muito tempo, e at\u00e9 o dia de sua morte, o Senhor Gato foi seu amigo e protetor.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 Os gatos devem ser sempre a mesma coisa, inclusive aqueles de natureza celestial. 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