{"id":98,"date":"2024-09-26T15:55:20","date_gmt":"2024-09-26T18:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/mensagensperdidas.com\/?page_id=98"},"modified":"2026-02-20T23:04:31","modified_gmt":"2026-02-21T02:04:31","slug":"etterbelle-deve-ser-livre","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mensagensperdidas.com\/index.php\/etterbelle-deve-ser-livre\/","title":{"rendered":"Etterbelle Deve Ser Livre"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">I<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle era como uma for\u00e7a da Natureza. Delicada, esguia e de longos cabelos dourados, voava pelos c\u00e9us do mundo, sempre sorrindo e alegre. Ningu\u00e9m sabia de onde ela vinha, e erroneamente a chamavam de fada. Mas o que todos sabiam \u00e9 que  a criatura tinha o costume de aparecer repentinamente diante dos desavisados para lhes dar felicidade. Antes que soubessem seu nome, ela desaparecia num piscar de olhos, deixando encantamento e fasc\u00ednio nos cora\u00e7\u00f5es aben\u00e7oados. Aqueles que sabiam de sua exist\u00eancia a esperavam com ansiosa expectativa, mas esperavam \u00e0 toa. Etterbelle aparecia apenas para quem n\u00e3o a aguardava, e todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es eram ao acaso. Por isso ela tamb\u00e9m foi chamada de <em>Felicidade Inesperada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ora, a felicidade que Etterbelle oferecia n\u00e3o era qualquer coisa. Ela enchia os cora\u00e7\u00f5es de seus agraciados com algo completo e cheio de sentido, esperan\u00e7a e consolo. Quem recebia tamanho presente, ap\u00f3s algum tempo, passava a lembrar com nostalgia do dia da imprevista alegria. Alguns ficavam satisfeitos apenas com isso, por\u00e9m outros queriam reviver o momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Conforme o tempo passava, n\u00e3o demorou muito para surgirem boatos sobre como invocar Etterbelle. Uns diziam: &#8220;coloquem biscoitos amanteigados na janela que ela vem&#8221;, enquanto outros afirmavam que bastava estar triste e desejar, com muita for\u00e7a, a sua presen\u00e7a. Nada disso funcionava, pois Etterbelle n\u00e3o estava presa a crendices e nem a f\u00f3rmulas m\u00e1gicas. Entretanto, o desejo pela <em>Felicidade Inesperada<\/em> crescia voluptuosamente, e um grande vazio se formava nos cora\u00e7\u00f5es dos homens e mulheres do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Logo os boatos, antes t\u00e3o inocentes, se transformaram em ideais e movimentos. Rituais elaborados, de aspectos religiosamente macabros, surgiram, e cada um pensou saber, ao seu jeito, o que era certo e errado. Por causa disso, muitas brigas e desentendimentos aconteceram, mas a \u00fanica coisa que era unanimidade entre pensamentos t\u00e3o opostos, era a necessidade de ser feliz a qualquer custo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle passou a ser perseguida com viol\u00eancia, e, por ser delicada e sens\u00edvel, se afastou daquela humanidade t\u00e3o cheia de suas certezas cert\u00edssimas. Por\u00e9m, mesmo apartada de todos, ca\u00e7adores de fama conseguiram rastre\u00e1-la. Horrorizada com aquele tipo de gente, passou a se esconder em nuvens escuras, ou em topos de grandes montanhas. Mas, ainda que estivesse com medo, seu cora\u00e7\u00e3o queimava por encontrar algu\u00e9m puro para compartilhar felicidade e realizar um desejo. Ent\u00e3o, vez ou outra, se arriscava e sa\u00eda por a\u00ed para alegrar alguma alma pura.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">II<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Conhecer o bem e o mal e definir, para si mesmo, o que \u00e9 certo e errado, n\u00e3o pareceu ser uma boa coisa para a ra\u00e7a humana \u2014 talvez n\u00e3o estivessem preparados para isso. Ora, desde que o ser humano passou a questionar a sua pr\u00f3pria realidade e a natureza das coisas, tendo uma suposta consci\u00eancia avan\u00e7ada, ele decidiu usar tamanho poder mental para se ver como senhor de si, n\u00e3o aceitando ningu\u00e9m acima. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que tal atitude levou a disc\u00f3rdias, guerras e assassinatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">E foi numa guerra de n\u00edveis monumentais que o pai de Otto Mastrini, Luca, foi morto. O corajoso capit\u00e3o Mastrini, como Luca era chamado, n\u00e3o concordava com aquele conflito louco, no entanto, sentia-se respons\u00e1vel por seus amigos e compatriotas, por isso se viu obrigado a entrar naquela guerra. Viu muitos morrerem, e seu peito do\u00eda ao pensar que tudo aquilo era devido a l\u00edderes ambiciosos, que n\u00e3o viam limites para seus impulsos eg\u00f3icos. Luca faleceu ao comandar uma potente fragata. Sofreu um forte bombardeio de pequenos avi\u00f5es, e heroicamente se esfor\u00e7ou para salvar o m\u00e1ximo de vidas que podia. O capit\u00e3o Mastrini deixou uma esposa e um filho de dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A resolu\u00e7\u00e3o da guerra trouxe vit\u00f3ria para um lado e tristeza e derrota para o outro. Entretanto, com o fim das bestialidades, a t\u00e3o desejada paz n\u00e3o veio; muito pelo contr\u00e1rio: o sentimento de \u00f3dio e m\u00e1goa predominou, tanto entre os derrotados quanto entre os vitoriosos. E foi naquele mundo dividido e complicado que Otto cresceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Quando Otto completou oito anos, sua m\u00e3e, Jana\u00edna, ficou gravemente doente. Eles n\u00e3o tinham muitas economias e o seu pa\u00eds parecia ter esquecido da fam\u00edlia do bravo capit\u00e3o Mastrini. Sem ter como conseguir tratamento adequado, Jana\u00edna logo morreria. E, de fato, n\u00e3o demorou muito para Otto se ver \u00f3rf\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O pequeno Otto passou por in\u00fameros abrigos e orfanatos, e a tristeza foi a sua companhia di\u00e1ria, al\u00e9m da fome. Havia outras crian\u00e7as t\u00e3o tristes quanto ele, mas muitas encontravam apoio umas nas outras. Por\u00e9m, mesmo assim, existiam aquelas que preferiam a solid\u00e3o, e Otto se compadecia delas. Foi ent\u00e3o, num dia frio, enquanto Otto vagava por um beco e pensava nos solit\u00e1rios, que Etterbelle o encontrou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Naquele tempo Etterbelle era s\u00f3 um rumor antigo, mas o menino lembrava das hist\u00f3rias que sua m\u00e3e contava. A criatura brilhante, de olhar meigo e de movimentos gentis, deu um longo e puro sorriso que fez o cora\u00e7\u00e3o do menino aquecer. Otto gaguejou e gaguejou de t\u00e3o deslumbrado que estava. Etterbelle ent\u00e3o lhe deu um simp\u00e1tico &#8220;ol\u00e1!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Vo-voc\u00ea \u00e9 a&#8230; a&#8230; Fada da Alegria! \u2014 Os olhos de Otto ficaram brilhantes com as l\u00e1grimas que come\u00e7avam a brotar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Fada?! Hmm N\u00e3o sei o que \u00e9 fada&#8230; Se \u00e9 coisa boa, ent\u00e3o talvez eu seja isso! \u2014 O sorriso de Etterbelle era cada vez mais cativante. Ent\u00e3o ela se inclinou bem para o garoto: \u2014 Voc\u00ea me parece ser um menino bem triste. O que quer que eu te fa\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A pergunta pegou o garoto de surpresa, e apenas uma coisa vinha em seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Bem&#8230; Eu gostaria de ter meu pai e minha m\u00e3e de volta. Eu queria eles de volta&#8230; Mam\u00e3e dizia que papai era um bom homem&#8230; eu&#8230; eu queria os dois&#8230; eu queria ver papai&#8230; \u2014 O menino come\u00e7ou a chorar em sil\u00eancio. Ent\u00e3o Etterbelle colocou sua delicada m\u00e3o no rosto do menino, e, secando suas l\u00e1grimas, disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Meu pequeno, infelizmente n\u00e3o posso reverter a morte. Mas posso recuperar a \u00faltima lembran\u00e7a que voc\u00ea tem de teus pais. Uma lembran\u00e7a que est\u00e1 bem guardada numa parte esquecida da tua mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ent\u00e3o, na mente do menino apareceu claramente a lembran\u00e7a de Luca e Jana\u00edna se abra\u00e7ando e sorrindo um para o outro. Naquela mem\u00f3ria Otto viu que seus pais o olhavam com profundo orgulho. Os pensamentos dos dois ecoaram na cabe\u00e7a da crian\u00e7a, e eram melodiosamente harmonizados, e diziam: &#8220;Ele vai ser um bom rapaz!&#8221;. Ap\u00f3s isso, Otto viu os brilhantes olhos de Etterbelle, que confirmaram os pensamentos dos pais:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Sim! Voc\u00ea \u00e9 e ser\u00e1 um bom rapaz! Mas haver\u00e1 dificuldades e percal\u00e7os em teu caminho; haver\u00e1 alegrias e tristezas&#8230; E voc\u00ea sentir\u00e1 raiva, Otto&#8230; por muitas vezes. Mas n\u00e3o perder\u00e1 a virtude. Ser\u00e1 sens\u00edvel \u00e0s coisas da vida e ter\u00e1 uma bela fam\u00edlia&#8230; E que fam\u00edlia! Eu sei que voc\u00ea n\u00e3o viveu o tempo que desejava com teus pais; mas eis que te dou uma alegria contagiante! Ela ser\u00e1 sombra e abrigo para quem estiver triste. A felicidade que te dou \u00e9 temperada, sim, com um pouquinho de tristeza. Isso faz com que as coisas tenham sentido. Alegria pela alegria \u00e9 f\u00fatil, e n\u00e3o te faz pensar a vida. Seja feliz! \u2014 A voz de Etterbelle era suave e pareceu penetrar no fundo do cora\u00e7\u00e3o do menino. A criatura sorriu, e sua luz e perfume o envolveram, e logo uma paz, al\u00e9m de consciente alegria, encheu o interior de Otto. Naquele momento o menino pareceu ter entendido algo da vida. Etterbelle o observou com vis\u00edvel prazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Por alguma raz\u00e3o, eu me afei\u00e7oei a voc\u00ea, menino!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ah! \u2014 A felicidade de Otto era transbordante \u2014 Ent\u00e3o eu&#8230; ent\u00e3o eu posso te apresentar aos meus amigos? Poxa! Eles precisam tanto disso que voc\u00ea me deu!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle sentiu uma triste pontada no cora\u00e7\u00e3o ao ouvir aquele pedido t\u00e3o sincero. J\u00e1 era arriscado demais aparecer para o garoto, e seria ainda mais perigoso aparecer para outros tantos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ai! Otto! Eu n\u00e3o posso fazer isso. Eu queria muito te acompanhar e alegrar teus amigos, mas&#8230; Olha, meu pequeno, tem gente que ainda me ca\u00e7a nesse mundo. Gente que acha que pode me controlar; que me v\u00ea como uma esp\u00e9cie de objeto que realiza todo e qualquer tipo de desejo. Se eu aparecer demais&#8230; Eu n\u00e3o quero nem pensar&#8230; \u2014 a voz de Etterbelle era doce, mas continha uma pitada de medo. Otto pareceu compreender, apesar de frustrado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ao menos seria legal ter voc\u00ea por perto para conversar&#8230; Os adultos n\u00e3o me d\u00e3o muita aten\u00e7\u00e3o&#8230; \u2014 Etterbelle estava sensibilizada pelo menino e seu cora\u00e7\u00e3o de manteiga logo derreteu:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Tudo bem, pequeno Otto! Sempre quando quiser conversar, v\u00e1 para um lugar mais discreto, como este beco. E n\u00e3o precisa me chamar; eu saberei te encontrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Otto deu um grande sorriso e abra\u00e7ou fortemente Etterbelle. A criatura sentiu ternura naquele gesto, e beijou a cabe\u00e7a do menino tal qual uma m\u00e3e faz com seu filho. Depois disso, o garoto voltou sorrindo para o abrigo, e escondeu de todos o motivo de t\u00e3o grande alegria.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">III<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Luciano Cambota era um banqueiro bem sucedido; tinha casas, carruagens e bons neg\u00f3cios. Era um homem abastado e respeitado, mas, no alto de seus quarenta anos, vivia solteiro e amargurado. Ora, as ra\u00edzes de sua afli\u00e7\u00e3o estavam em sua juventude, pois desde novo foi fissurado por Leila Am\u00e9lia, mulher rica, dona de seu pr\u00f3prio nariz e cheia de pretendentes. A paix\u00e3o de Luciano era t\u00e3o grande que ele n\u00e3o se cansava de cortejar a ent\u00e3o jovem. Alimentava-se de fracas esperan\u00e7as de que, um dia, Leila cederia e o aceitaria como namorado e, por fim, como marido. No entanto, Leila nunca viu interesse no pobre rapaz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">De repente Leila se casou com um rico estrangeiro e foi morar em outro pa\u00eds. Isso pegou a todos de surpresa, principalmente a Luciano. Enquanto a inalcan\u00e7\u00e1vel Leila foi viver uma vida feliz e rica, o mundo de Luciano pareceu desabar. Desde ent\u00e3o o banqueiro ficou remoendo o que chamou de perda, e povoou sua mente com ilus\u00f5es do que poderia ter sido. Tais pensamentos, cada vez mais obsessivos e obcecados, o fizeram ignorar muitas outras mulheres que se interessaram, genuinamente, por ele. E foi assim at\u00e9 chegar aos seus quarenta anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Mas Luciano n\u00e3o deixava transparecer suas ang\u00fastias. Diante de todos, era agradabil\u00edssimo e muito simp\u00e1tico, sempre com um sorriso leve no rosto. Procurava at\u00e9 mesmo ser generoso, pois isso lhe trazia muitos elogios e aumentava o seu prest\u00edgio na comunidade. Por\u00e9m, quem prestasse bem aten\u00e7\u00e3o aos seus olhos, perceberia que havia algo de errado. Por isso Luciano n\u00e3o procurava perder muito tempo com conversas longas e individuais. Quando estava sozinho, sua fisionomia leve se transformava em algo atormentado, e seus pensamentos se voltavam unicamente para Leila. E foi num momento solit\u00e1rio, com a mente tomada por sua obsess\u00e3o, que Luciano viu, pela sua janela, o brilho de Etterbelle, que caminhava ao lado do pequeno Otto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O senhor Cambota n\u00e3o acreditava no que estava vendo. Para ele, a <em>Felicidade Inesperada<\/em>, a tal da &#8220;Fada da Alegria&#8221;, era apenas uma lenda quase esquecida que se contava para crian\u00e7as. Apertou os olhos por duas vezes, e observava, abismado, a criatura et\u00e9rea e divinal. Tomado por uma alegre ambi\u00e7\u00e3o, pulou sua janela como um adolescente, e correu na dire\u00e7\u00e3o do brilho, assustando tanto a Etterbelle quanto a Otto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mil perd\u00f5es! Mil perd\u00f5es meus caros amigos! \u2014 Luciano arfava. Fazia tempo que n\u00e3o corria daquele jeito \u2014 Meu Deus!&#8230; Eu n\u00e3o acredito que \u00e9 voc\u00ea!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle e Otto sentiram medo de Luciano, que usava apenas um pijama de bolinhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o tenham medo, meus caros! Me desculpem por eu estar vestido assim! \u00c9 que&#8230; meu Deus! \u00c9 a Fada da Alegria! \u00c9 exatamente do jeito que contam as hist\u00f3rias! Isso \u00e9 fant\u00e1stico! Voc\u00ea&#8230;voc\u00ea \u00e9 real! \u2014 Etterbelle se incomodou profundamente com os olhos sedentos de Luciano, e, deixando Otto atr\u00e1s de si, procurou se afastar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Olha, senhor&#8230; eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea quer, mas n\u00e3o posso te oferecer nada no momento. E \u00e9 bem inapropriado voc\u00ea estar na rua vestido desse jeito. \u2014 a voz de Etterbelle era firme e met\u00e1lica. Otto ent\u00e3o interveio, complementando:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mo\u00e7o, est\u00e1 realmente frio e minha amiga precisa ir para casa agora. \u2014 Luciano ignorou completamente o garoto e, voltando-se para Etterbelle, disse, com ansiedade:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Por favor, minha dama, conceda-me felicidade! Eu a quero mais que tudo! Eu quero minha preciosa Leila!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Senhor! Eu preciso ir embora! Pare de falar essas coisas! \u2014 respondeu Etterbelle, se afastando ainda mais do banqueiro. Por\u00e9m este, avan\u00e7ando com voracidade, protestou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas voc\u00ea \u00e9 a Fada da Alegria! Atenda ao meu pedido! Atenda ao meu desejo! Agora!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 As coisas n\u00e3o s\u00e3o assim, homem! Otto, volte para casa! \u2014 Ap\u00f3s dizer aquelas palavras, Etterbelle desapareceu num piscar de olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O banqueiro, revoltado e transtornado com a recusa de Etterbelle, sentiu \u00f3dio. Procurou pelo menino, mas Otto j\u00e1 havia se embrenhado em um beco e desaparecido na escurid\u00e3o da noite. Bufando e vermelho de raiva, Luciano prometeu achar tanto o menino quanto a Etterbelle; ele iria fazer o que fosse preciso para ter seu desejo atendido.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">IV<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Havia na cidade uma loja de apar\u00eancia estranha que Luciano conhecia bem. Tempos atr\u00e1s o banqueiro alugara tal estabelecimento para um curioso homem de terno e gravata, que insistia em n\u00e3o revelar seu nome; gostava apenas de ser chamado de Comerciante. Ora, naquela tarde Luciano decidiu fazer uma pequena visita a ele e, ao abrir a porta, um delicado sino soou. O Comerciante estava no balc\u00e3o do fundo, olhando sinistramente para a entrada, como se esperasse pela chegada de seu senhorio. O banqueiro sentiu certo calafrio ao ver aqueles olhos escuros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ah! Se n\u00e3o \u00e9 o meu precioso locador! Entre! Entre e seja bem-vindo a minha humilde loja! No que posso te ajudar? \u2014 A voz do Comerciante era grave e curiosamente confort\u00e1vel de se ouvir. Ele deslizou at\u00e9 Luciano como um fantasma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu acho que \u00e9 a primeira vez que vejo como \u00e9 tua loja. \u2014 Luciano pegou um recipiente vermelho ricamente ornado de detalhes dourados em uma das prateleiras, e come\u00e7ou a analis\u00e1-lo \u2014 Voc\u00ea vende&#8230; objetos interessantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Interessado em g\u00eanios, meu caro? \u2014 Perguntou o Comerciante, retirando, delicadamente, o recipiente das m\u00e3os de Luciano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ha ha! G\u00eanios! Essa \u00e9 uma forma de dar mais valor \u00e0s tuas bugigangas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Se voc\u00ea achasse que tudo isso s\u00e3o bugigangas, n\u00e3o viria aqui, meu caro senhor. Cada objeto que vendo \u00e9 especial&#8230; e creio que voc\u00ea est\u00e1 em busca de algo&#8230; especial\u00edssimo. \u2014 A sedu\u00e7\u00e3o na voz do Comerciante pareceu mexer profundamente com Luciano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea conhece algo sobre a tal da Etterbelle?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Etterbelle? Hmm&#8230; Ela \u00e9 uma criatura bem peculiar&#8230; Mas j\u00e1 faz tempo que n\u00e3o ou\u00e7o nada dela por a\u00ed. \u2014 O estranho e p\u00e1lido homem abriu um sorriso tenebroso \u2014 Meu car\u00edssimo senhorio, voc\u00ea espera encontrar alguma bugiganga para presente\u00e1-la? Olha, ela pode ser bem exigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu s\u00f3 quero saber se voc\u00ea a conhece!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 E por que acha que eu, um humilde comerciante, a conheceria? \u2014 Luciano fez men\u00e7\u00e3o de responder, mas se calou. O ambiente ficou mais sombrio, e os olhos do Comerciante pareceram ficar mais escuros que o normal \u2014 \u00c9&#8230; seria interessante t\u00ea-la em minhas cole\u00e7\u00f5es. Eu j\u00e1 a vi por a\u00ed, mas isso faz tempo&#8230; muito tempo, por sinal. N\u00e3o a conhe\u00e7o pessoalmente, mas sei que \u00e9 de natureza incerta&#8230; Apenas <em>aqui<\/em> vi tal criatura. Sei que ela concede felicidade para qualquer um que ela deseje. \u00c9 isso que sei sobre ela. \u2014 Um sil\u00eancio m\u00f3rbido caiu sobre a loja, como se o mundo n\u00e3o existisse do lado de fora \u2014 Meu caro senhor Cambota, sejamos francos: na superf\u00edcie voc\u00ea quer acreditar que vendo bugigangas e outras parafern\u00e1lias para uns moleques chatos. Mas voc\u00ea sabe, por mais que negue, que vendo coisas realmente especiais. Se n\u00e3o fosse assim, voc\u00ea n\u00e3o viria aqui, t\u00e3o de repente para perguntar algo t\u00e3o espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Imaginei que pelo teor da sua loja&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Diga o que quer, meu senhorio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Bem&#8230; Est\u00e1 bem! J\u00e1 ouvi por a\u00ed que teve gente que tentou capturar Etterbelle, e que em alguns casos, quase conseguiram. Eu&#8230; eu&#8230; queria saber se voc\u00ea tem&#8230; meu Deus do c\u00e9u, isso \u00e9 loucura! O que eu estou fazendo aqui?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea quer saber se eu tenho algo que ajude a captur\u00e1-la? \u00c9 isso? Isso eu tenho, com toda a certeza. E esses ca\u00e7adores que voc\u00ea mencionou eram uns in\u00fateis. Conhe\u00e7o-os bem. Mas&#8230; antes de eu te mostrar o produto para captur\u00e1-la, quero saber como far\u00e1 para achar essa criatura? Est\u00e1 muito certo de que pode encontr\u00e1-la; vejo em teus olhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Apenas tenho uma forma de encontr\u00e1-la. Agora, onde est\u00e1 esse tal produto?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O Comerciante pareceu deslizar para um lado, sumindo em seguida. Isso deixou o banqueiro completamente assustado, e sua cabe\u00e7a come\u00e7ou a girar; era como se a realidade se desfizesse ao seu redor. Ent\u00e3o, em quest\u00e3o de segundos, a realidade se reestabeleceu e o Comerciante reapareceu carregando uma pulseira prateada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas&#8230; mas&#8230; o que aconteceu?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Fui buscar uma das minhas &#8220;bugigangas&#8221;. Tome, segure isto. \u2014 Luciano pegou a pulseira, que era muito leve. Percebeu que havia algumas coisas escritas nela. O Comerciante ent\u00e3o lhe falou: \u2014 &#8220;A sua vontade \u00e9 oprimida, e a materialidade \u00e9 exigida&#8221;, \u00e9 isso que est\u00e1 escrito. Se conseguir achar Etterbelle, coloque isso em um de seus pulsos, e ela n\u00e3o conseguir\u00e1 desaparecer. Al\u00e9m disso, ela se sentir\u00e1 obrigada a te seguir, mesmo que n\u00e3o queira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Luciano ficou olhando para aquele objeto, sem acreditar muito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Como vou saber que isso funciona?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Apenas coloque em um dos pulsos dela. \u2014 respondeu o Comerciante com um sorriso macabro. \u2014 Depois que ela tiver sua vontade subjugada, aconselho enjaul\u00e1-la. S\u00f3 por precau\u00e7\u00e3o. E&#8230; sobre o pagamento&#8230; \u2014 Luciano sentiu uma pontada no peito ao ouvir isso \u2014 He he! N\u00e3o se preocupe, meu caro senhorio, n\u00e3o vou pedir tua alma ou coisa do tipo. Quero apenas que me entregue Etterbelle depois de us\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 E se eu n\u00e3o quiser entreg\u00e1-la?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea se enjoar\u00e1 dela. Quando isso acontecer, entregue-a para mim. Eu espero o tempo que for preciso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Luciano de repente se sentiu impelido a sair da loja. Era como se uma for\u00e7a oculta o expulsasse dali. O Comerciante, por sua vez, retornando para o seu macabro balc\u00e3o, esbo\u00e7ou um sorriso enigm\u00e1tico enquanto seu senhorio fechava a porta.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">V<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle se tornou muito amiga de Otto, e, sempre que podiam, se encontravam no alto de pr\u00e9dios, ou em cemit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">O menino gostava muito de conversar e de se abrir com Etterbelle, que sentia um imenso prazer em estar com ele. Ap\u00f3s cada conversa, Otto voltava mais maduro e isso logo transpareceu para os adultos, que passaram a enxerg\u00e1-lo como muito inteligente e respons\u00e1vel. Isso lhe trouxe muitos benef\u00edcios, at\u00e9 que foi adotado por um gentil casal de professores que vislumbrou um futuro cheio de possibilidades para o garoto. Mesmo vivendo uma vida, na medida do poss\u00edvel, feliz, Otto nunca deixou de se encontrar com a <em>Felicidade Inesperada<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">No entanto, quando Otto tinha seus onze anos, Luciano Cambota conseguiu reencontr\u00e1-lo. O banqueiro se lembrou do rosto do menino e foi falar com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ei, garoto! Que bom que te achei! N\u00e3o est\u00e1 lembrado de mim? \u2014 Apesar da simpatia, havia uma sombra de tormento no rosto de Luciano \u2014 Como demorei para te achar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Me&#8230; desculpe, senhor. N\u00e3o posso falar com estranhos. \u2014 Otto tentou ir embora, mas Luciano agarrou o seu bra\u00e7o e disse, ainda mantendo seu sorriso: \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o v\u00e1 agora! Olha, garoto, preciso muito que chame a Fada da Alegria para mim. Ela ainda tem falado com voc\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Me solte! Ai! \u2014 Otto conseguiu se desvencilhar de Luciano, e deu um chute na canela do homem. O banqueiro, distra\u00eddo com a dor, n\u00e3o viu para onde o menino correu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Moleque maldito! Ainda vou descobrir onde voc\u00ea mora e vou infernizar a sua vida! Etterbelle deve ser minha!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Otto foi direto para casa, chorando. Fernando e Yolanda, seus pais adotivos, ficaram assustados quando viram o estado do menino. Quando este lhes revelou o que tinha acontecido naquela tarde, o casal, revoltado, foi at\u00e9 \u00e0 pol\u00edcia para denunciar o senhor Cambota. No entanto, o delegado Aur\u00e9lio n\u00e3o quis aceitar as acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Como assim voc\u00ea n\u00e3o pode investigar o que esse banqueiro fez?! \u2014 Esbravejou Fernando, sendo seguido por Yolanda: \u2014 Se eu colocar as m\u00e3os naquele salafr\u00e1rio eu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Calma, meus caros! Calma!&#8230; \u2014 a voz de Aur\u00e9lio era irritantemente suave \u2014 Voc\u00eas t\u00eam somente o relato de uma crian\u00e7a. O senhor Cambota \u00e9 incapaz de fazer maldade para uma mosca. Ser\u00e1 que o filho de voc\u00eas n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 querendo aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Olha aqui seu&#8230;! \u2014 Yolanda teve que ser contida por Fernando antes que ela avan\u00e7asse em Aur\u00e9lio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Se recomponha, mulher! Se me agredir, mando os dois para a pris\u00e3o! E isso vai ser ruim para o garoto!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 O senhor n\u00e3o far\u00e1 nada, delegado? \u2014 Perguntou Fernando, tentando conter sua raiva. Aur\u00e9lio simplesmente respondeu dando de ombros. Assim que o casal deixou o local, o delegado pegou o telefone e ligou para Luciano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Al\u00f4&#8230; Senhor Cambota? Aqui \u00e9 Aur\u00e9lio, delegado. Apenas para te avisar que estiveram aqui dois professores que disseram que voc\u00ea maltratou o filho deles&#8230; \u00c9&#8230; Hm, hm&#8230; Isso \u00e9 um absurdo mesmo. Ah! O nome deles e do filho? Os pais se chamam Fernando e Yolanda&#8230; O filho se chama&#8230; como \u00e9 mesmo?&#8230; Ah! Otto, alguma coisa assim&#8230;. Hm? Ah, o senhor quer saber onde eles moram? \u2014 Aur\u00e9lio ficou um pouco reticente com o pedido de Luciano \u2014 Olha&#8230; eu n\u00e3o sei se seria \u00e9tico&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 \u00c9tico seria se eu expusesse todos os podres da sua delegacia, senhor Aur\u00e9lio. Se quiser manter tudo em ordem, apenas me diga onde eles moram. Ah! Se poss\u00edvel, me diga onde esses&#8230; professores trabalham tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Tudo bem, senhor Cambota&#8230; tudo bem! O senhor n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mesmo! Eles moram na Rua dos Laranjais, 45. A escola que os dois trabalham \u00e9&#8230; deixa eu ver&#8230; Fica na Rua de S\u00e3o Albuquerque das Flores, n\u00famero 2. Hm, hm. Essa liga\u00e7\u00e3o nunca aconteceu, tudo bem, senhor Cambota? Sim? Ok! \u2014 Depois que Aur\u00e9lio desligou o telefone, Luciano sorriu malignamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Tr\u00eas dias ap\u00f3s aquela liga\u00e7\u00e3o, Luciano fez quest\u00e3o de comprar a escola onde Fernando e Yolanda trabalhavam. Sendo o novo dono, exigiu que os dois fossem demitidos, e como muitos na cidade deviam favores ao banqueiro, os pais de Otto tiveram dificuldades para arrumar um novo emprego. N\u00e3o satisfeito, Luciano fez neg\u00f3cio com o senhorio do casal, e comprou a casa onde moravam. Por meio de um advogado, o senhor Cambota ordenou que a fam\u00edlia de Otto fosse despejada. Desolados, e sem ter para onde ir, Fernando e Yolanda temeram por Otto. Poderia acontecer de algu\u00e9m do servi\u00e7o social vir e tomar a crian\u00e7a, j\u00e1 que estavam quase em completa vulnerabilidade. E foi naquela situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria que Etterbelle reencontrou Otto. Logicamente ela se entristeceu ao ver o estado de sua fam\u00edlia. Enquanto Fernando e Yolanda dormiam num barraco improvisado, Etterbelle se aproximou de um choroso Otto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Foi Luciano Cambota! Foi aquele banqueiro de meia tigela! \u2014 Otto falava isso enquanto abra\u00e7ava a sua amiga luminosa \u2014 Esse monstro est\u00e1 atr\u00e1s de voc\u00ea, Etterbelle! Acho que \u00e9 melhor a gente parar de se encontrar, sen\u00e3o ele vai te achar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Como pode um homem ser t\u00e3o mau assim?&#8230; Meu Deus do c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Se voc\u00ea, sendo bem mais velha, n\u00e3o sabe responder isso, imagine eu&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Enquanto conversavam, Luciano estava de tocaia com uns pilantras contratados. O banqueiro, ap\u00f3s realizar suas maldades contra a fam\u00edlia de Otto, sabia que, mais cedo ou mais tarde, Etterbelle apareceria. Ent\u00e3o viu os dois abra\u00e7ados e teve a impress\u00e3o de ver uma m\u00e3e consolando um filho. Aquilo o encheu de \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Em certo momento, Etterbelle sentiu o ambiente ficar estranho e percebeu um ou outro vulto correr para l\u00e1 e para c\u00e1. Otto ficou assustado e, num movimento r\u00e1pido, Luciano brotou das trevas e prendeu a pulseira no delicado pulso da criatura. Etterbelle, ao ver o que aconteceu, se afastou e tentou desaparecer, mas n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Fuja daqui, Etterbelle! \u2014 gritou Otto, acordando seus pais no barraco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu n\u00e3o consigo fugir! Eu n\u00e3o consigo&#8230; voar&#8230; Ai! O que est\u00e1 havendo?! <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Enquanto Luciano se aproximava vagarosamente da <em>Felicidade Inesperada<\/em>, os pilantras derrubaram Otto no ch\u00e3o e atearam fogo no barraco de seus pais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o!!! Os pais de Otto, n\u00e3o!!! \u2014 o grito de Etterbelle foi cortante e encheu de ang\u00fastia alguns malfeitores, que fugiram assustados. Por\u00e9m, outros riram da situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o Luciano Cambota disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eles n\u00e3o v\u00e3o morrer. Eu poderia fazer isso, mas n\u00e3o quero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Seu monstro! Ai&#8230; eu estou me sentindo fraca&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea agora \u00e9 minha! Voc\u00ea agora \u00e9 minha Fada da Alegria! Vamos, levante-se e me siga! \u2014 Etterbelle, n\u00e3o se sentindo mais senhora de si, e sem entender, obedeceu. Otto n\u00e3o sabia se ajudava os pais ou se ajudava sua amiga, at\u00e9 que Luciano lhe disse: \u2014 A pol\u00edcia est\u00e1 vindo prender teus pais, moleque. Ningu\u00e9m mandou esses dois atearem fogo na rua. Ei! Voc\u00eas dois a\u00ed! Joguem esse casal ali, naquela pilha de lixo, e deem um tapa nesse moleque!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Os dois brutamontes atenderam a ordem de Luciano, e agarraram Fernando e Yolanda como se fossem bonecos de pano. Como se debatiam muito, os capangas socaram a barriga dos dois e os largaram em cima do lixo. No entanto, quando procuraram por Otto, este tinha desaparecido. Os dois malfeitores, junto com uns outros que ainda estavam por ali, n\u00e3o demoraram para debandar. Otto estava escondido e esperava por um momento para ajudar seus pais, por\u00e9m, antes que pudesse agir, o delegado Aur\u00e9lio apareceu com dez policiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 \u00c9 muito triste ver que voc\u00eas se revoltaram desse jeito! \u2014 Aur\u00e9lio falou isso com disfar\u00e7ado desd\u00e9m; estava constrangido \u2014 Onde est\u00e1 o filho de voc\u00eas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00f3s n\u00e3o fizemos nada! Nada! Vieram uns vagabundos e quase nos mataram! \u2014 esbravejou Fernando, olhando ao redor, procurando por Otto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas&#8230; foram voc\u00eas que atearam fogo aqui&#8230; e causaram essa confus\u00e3o. \u2014 Aur\u00e9lio tentava conter seu constrangimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 dizendo?! Cad\u00ea meu filho?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o sei. Talvez voc\u00eas pudessem dizer&#8230; O servi\u00e7o social deve vir logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Seu&#8230; \u2014 Yolanda se levantou e socou fortemente o rosto de Aur\u00e9lio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Prendam esses dois salafr\u00e1rios! Tirem eles daqui! \u2014 o delegado ficou vermelho de raiva e segurava o seu queixo, que do\u00eda fortemente. \u2014 Procurem o garoto! Ele deve estar por perto!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Otto, sem saber o que fazer, correu pelos becos e ruas, afastando-se daquele local. Subiu ao terra\u00e7o de um pequeno pr\u00e9dio e se empoleirou num canto. Chorando silenciosamente, viu uma pequena coluna de fuma\u00e7a preta subir ao longe. Quis ajudar seus pais e Etterbelle, mas sentiu-se impotente, e o vento frio pareceu tortur\u00e1-lo ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">VI<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle estava amuada e com o brilho fraco. Encostada num canto da jaula que Luciano mandou construir, olhava para a maldita pulseira de prata. J\u00e1 Luciano era s\u00f3 felicidade; mas sua felicidade era vil. Olhava para a <em>Felicidade Inesperada<\/em> com cobi\u00e7a e desejo, e a sombra de sua maldade enchia Etterbelle de nojo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Agora eu terei tudo o que mere\u00e7o! Tudo o que sempre mereci!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 E o que voc\u00ea acha que merece, senhor? \u2014 a voz de Etterbelle era mon\u00f3tona e pesada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu mere\u00e7o ser feliz! Mere\u00e7o ter o que sempre quis! Minha Leila! Minha amada Leila!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Senhor&#8230; eu n\u00e3o posso fazer isso&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Por que n\u00e3o?! Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 a Fada da Alegria?! A fada realizadora de desejos?! Vamos! Fa\u00e7a Leila Am\u00e9lia largar o traste do marido dela, e fa\u00e7a com que se apaixone por mim! Fa\u00e7a isso!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu n\u00e3o posso for\u00e7ar a vontade de ningu\u00e9m&#8230; N\u00e3o me pe\u00e7a isso!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mentirosa! Voc\u00ea d\u00e1 uma fam\u00edlia para um moleque de rua, mas n\u00e3o pode me dar a mulher da minha vida?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu n\u00e3o dei fam\u00edlia alguma a ele. Otto foi adotado por boa gente&#8230; Gente que voc\u00ea fez quest\u00e3o de maltratar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 come\u00e7ando a me parecer in\u00fatil. Mas&#8230; \u00e9 bonita e ficar\u00e1 a\u00ed, nesse teu canto. Quem sabe voc\u00ea se arrependa de tua tolice e venha a atender ao meu desejo? \u2014 Luciano ent\u00e3o saiu do quarto, fechando a porta com for\u00e7a, e Etterbelle ficou numa escurid\u00e3o profunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Aquele foi um per\u00edodo ruim, e os dias eram longos e demorados. A cada semana Etterbelle definhava mais e mais, e seu brilho era cada vez mais moribundo. Foi assim por dois anos, at\u00e9 que o senhor Cambota finalmente se enjoou dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Pois \u00e9, querida fada \u2014 Luciano se jogou pesadamente na poltrona que ficava \u00e0 frente da jaula \u2014 Acho que voc\u00ea \u00e9 uma farsa. Bem, tenho um conhecido que diz que n\u00e3o&#8230; e ele tem interesse em voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00ea fala do homem que te deu esta pulseira? \u2014 a voz de Etterbelle saiu aspirada e seca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Amigo seu? Bem&#8230; Acho que ele far\u00e1 melhor uso de voc\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 O que eu n\u00e3o entendo, senhor Cambota, \u00e9 como voc\u00ea n\u00e3o consegue se sentir satisfeito com nada. Voc\u00ea&#8230; voc\u00ea tem tudo; literalmente tudo! Casa, comida e uma cama confort\u00e1vel para dormir. Quando eu era livre e voava por a\u00ed, eu via o senhor rejeitar tantas pretendentes&#8230; Mas voc\u00ea ainda \u00e9 fissurado na Leila Am\u00e9lia. Ela seguiu com a sua vida e voc\u00ea ficou parado no tempo. Voc\u00ea n\u00e3o vive de verdade e chora por aquilo que n\u00e3o aconteceu; se entristece por aquilo que n\u00e3o tem e nem ter\u00e1. E, mesmo que tivesse, voc\u00ea se sentiria vazio e sem prop\u00f3sito. \u2014 Etterbelle olhou firme para Luciano \u2014 Meu Deus&#8230; o teu vazio \u00e9 horrendo! Ent\u00e3o uma coisa eu te dou: veja-se!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">A fisionomia de Etterbelle se alterou profundamente e uma sensa\u00e7\u00e3o de terror tomou a sala, fazendo com que Luciano se apavorasse. Perturbado e sentindo p\u00e9ssimo agouro, o banqueiro fugiu do quarto e se trancou no banheiro. Ao se olhar no espelho, passou a m\u00e3o no rosto e, pela primera vez, reparou em seu pr\u00f3prio reflexo. Vendo o seu vazio e suas atrocidades, percebendo quem realmente era, sentiu vergonha, nojo e remorso.<\/p>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">VII<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Etterbelle, quase apagada, ainda n\u00e3o havia perdido a esperan\u00e7a. Era de sua natureza acreditar que seria livre novamente, quer morrendo, quer vivendo. Foi ent\u00e3o que, inusitadamente, Otto entrou pela janela. A <em>Felicidade Inesperada<\/em>, n\u00e3o crendo em seus pr\u00f3prios olhos, demorou para entender que aquilo n\u00e3o era uma alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Otto?! \u00c9 voc\u00ea mesmo?! Voc\u00ea est\u00e1 maior! \u2014 Etterbelle brilhou fracamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Meu Deus! Etterbelle! O que fizeram com voc\u00ea?! O que aquele cr\u00e1pula fez?! Voc\u00ea est\u00e1 mal&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o se preocupe comigo&#8230; Te ver j\u00e1 me deixa feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Vou soltar voc\u00ea da\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o fa\u00e7a muito barulho&#8230; O senhor Cambota pode retornar a qualquer momento&#8230; Me diga, como tem vivido? Teus pais est\u00e3o bem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Sim, est\u00e3o. Dei um jeito de denunciar o Aur\u00e9lio&#8230; e dei uma baita dor de cabe\u00e7a na delegacia. A\u00ed eles se viram obrigados a libertar meus pais&#8230; Poxa! Fechadura dif\u00edcil essa!&#8230; Mas com Aur\u00e9lio preso por m\u00e1 conduta, o juiz entendeu que meus pais s\u00e3o inocentes. At\u00e9 que estamos vivendo bem&#8230; n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa de antes, mas estamos bem; consegui!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Voc\u00eas ainda est\u00e3o na cidade? \u2014 Etterbelle ofereceu o bra\u00e7o com a pulseira para Otto \u2014 E por que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 com teus pais, menino?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Ainda estamos na cidade. E&#8230; eu n\u00e3o podia te deixar para tr\u00e1s. Meus pais sabem que voc\u00ea \u00e9 minha amiga e que me preocupo com voc\u00ea. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas o senhor Cambota pode ser vingativo. Ele \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Depois da bagun\u00e7a que fiz na delegacia, posso dizer que atra\u00ed a aten\u00e7\u00e3o de alguns ju\u00edzes para nossa cidade. Acho que o senhor Cambota vai ter alguns probleminhas se ele n\u00e3o se ajeitar. Que pulseira esquisita! \u2014 Otto tentava entender o que estava escrito \u2014 \u00c9 isso que est\u00e1 te prendendo? Como se abre isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Sim. \u00c9 um tipo de magia que n\u00e3o conhe\u00e7o&#8230; E n\u00e3o entendo o que est\u00e1 escrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 &#8220;A sua vontade \u00e9 oprimida, e a materialidade \u00e9 exigida&#8221;. \u2014 Respondeu Luciano sombriamente enquanto entrava no quarto. Otto se colocou a frente de Etterbelle e sacou uma faca. O banqueiro sorriu tristemente \u2014 Quem me disse isso foi o Comerciante&#8230; Homem esquisito&#8230; Garoto, pode guardar a faca. Ningu\u00e9m aqui vai lutar ou se machucar. Se bem que eu poderia te machucar&#8230; Invadir propriedade alheia \u00e9 crime. Mas&#8230; mas voc\u00ea tem suas raz\u00f5es&#8230; \u2014 Etterbelle e Otto olharam assustados para o banqueiro, que se jogou na poltrona \u2014 Garoto, essa pulseira n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de abrir; n\u00e3o para n\u00f3s. Apenas fa\u00e7a for\u00e7a para abri-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Otto fez conforme Luciano disse, e logo Etterbelle se viu livre. Ela brilhou como uma estrela, e a sua luz inundou todo o quarto. Luciano, de cabe\u00e7a baixa, come\u00e7ou a chorar silenciosamente. A <em>Felicidade Inesperada<\/em>, aproximando-se, tocou-lhe um dos ombros:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 \u00c9 hora de deixar a tua feiura para tr\u00e1s, Luciano. Agora que voc\u00ea se v\u00ea, \u00e9 hora de se arrepender de tua maldade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mas e&#8230; e se eu n\u00e3o conseguir mudar? \u2014 a voz chorosa do banqueiro cortou o cora\u00e7\u00e3o de Otto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Mudan\u00e7as s\u00e3o lentas&#8230; geralmente lentas. \u00c0s vezes s\u00e3o dif\u00edceis&#8230; Mas isso sempre vai depender de voc\u00ea. \u2014 Etterbelle sorriu docemente para Luciano, deixando-o at\u00f4nito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Por que sorri para mim? Eu te fiz mal!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 N\u00e3o vou guardar nada contra voc\u00ea. Eu te perdoo. N\u00e3o h\u00e1 porqu\u00ea guardarmos m\u00e1goas que s\u00f3 nos levam \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua. O mundo j\u00e1 est\u00e1 ruim demais para mais m\u00e1goas e rancores. Para mim, nosso assunto est\u00e1 encerrado. Otto, vamos? Vou te dar uma carona at\u00e9 a casa dos teus pais! Vai ser a primeira vez que voc\u00ea vai voar comigo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">De repente, num piscar de olhos, Etterbelle e Otto desapareceram. Luciano ficou sem palavras e guardou, no fundo de seu cora\u00e7\u00e3o, aquelas poucas palavras que a <em>Felicidade Inesperada<\/em> lhe deu. Ao que parece, a semente da bondade come\u00e7ava a espalhar suas ra\u00edzes no interior do banqueiro, e, timidamente uma disposi\u00e7\u00e3o para viver de verdade come\u00e7ou a crescer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Otto, por sua vez, frustrou-se quando a carona terminou. No entanto, estava muito alegre por ver sua amiga livre novamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Est\u00e1 entregue, pequeno Otto! Voc\u00ea \u00e9 um rapaz muito doce!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu amo ver voc\u00ea assim! Livre e brilhante! \u2014 Otto deu um forte abra\u00e7o em Etterbelle \u2014 Ser\u00e1 que o senhor Cambota vai mudar? \u00c9 muito dif\u00edcil fazer o que voc\u00ea fez&#8230; Acho que ainda estou chateado com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Isso \u00e9 natural, Otto. Mas&#8230; com o tempo voc\u00ea ir\u00e1 perdo\u00e1-lo de uma vez. \u2014 Etterbelle olhou para o c\u00e9u estrelado \u2014 Esse mundo ainda \u00e9 perigoso para mim&#8230; Pode ser que Luciano mude, mas h\u00e1 aqueles que nunca ir\u00e3o querer mudar. E tem gente realmente perigosa&#8230; Otto, preciso ir embora&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">\u2014 Eu imagino que sim&#8230; J\u00e1 esperava por isso&#8230; Bem&#8230; \u00c9 melhor voc\u00ea ir&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\">Ambos se abra\u00e7aram novamente e Etterbelle come\u00e7ou a voar, deixando um Otto emocionado na porta de sua casa. De repente ela desapareceu, deixando uma nuvem dourada no ar. Otto ent\u00e3o, timidamente, bateu na porta. Fernando e Yolanda abriram e abra\u00e7aram o seu filho. Reunidos, foram jantar e houve felicidade naquela casa por muitos e muitos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Etterbelle era como uma for\u00e7a da Natureza. Delicada, esguia e de longos cabelos dourados, voava pelos c\u00e9us do mundo, sempre sorrindo e alegre. Ningu\u00e9m sabia de onde ela vinha, e erroneamente a chamavam de fada. 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