O relógio já batia 19h32min, e Ricardo Albuquerque Pereira estava cansado. Cansado e com fome. Aquele dia foi particularmente difícil no escritório; todos estavam estressados, e o chefe, Paulo Duarte Antônio Vieira, estava uma pilha de nervos. Diziam que era por causa de seu recente divórcio, e outros, mais maldosos, falavam que a razão de sua raiva era constipação. Talvez fossem as duas coisas, mas, de qualquer modo, Ricardo não se importava; para ele o dia foi apenas complicado.
Perto de seu ponto de ônibus, havia uma dessas lanchonetes de franquia famosa. Eram lanches, para padrões brasileiros, bem caros, mas era início de mês e seu vale-refeição estava cheio. Ricardo podia se dar o luxo de gastar dinheiro com um bom sanduíche de procedência duvidosa. Entrou feliz no recinto, e todos o olharam com estranha indiferença. Foi incômodo, mas o moço ignorou aquela recepção bizarra.
Como não havia totens para autoatendimento, Ricardo foi direto ao caixa. A atendente, Marcela Padrão Oliveira, tinha uma face que expressava cansaço e desânimo. Era um rosto anêmico e forçava um sorriso de falsa simpatia. Todos estavam cansados, e talvez o dia para o pessoal da lanchonete tenha sido difícil também. Ricardo relevou e fez seu pedido. Em poucos minutos, já estava degustando seu saboroso sanduíche.
Enquanto comia, percebeu que uma ou outra pessoa o olhava de modo esquisito. Ricardo achou que era coisa de sua cabeça, até que um homem magrelo sentou-se ao seu lado.
— Está tudo bem? — Perguntou o jovem ao estranho, que continuou o olhando fixamente. Ricardo se mexeu, desconfortável. — Homem, está tudo bem? Você quer um pedaço do meu sanduíche? Quer que eu te pague alguma coisa?
— Você devia ter vergonha! — Começou o estranho — Olha só isso! Tudo sujo! Você devia saber como comer! Olha! Olha! Tudo caindo aí!
— Rapaz! E o que você tem a ver com isso?! Eu como do jeito que eu quiser! E tem outras pessoas comendo da mesma forma que eu!
— Mas olha a sujeira na tua bandeja! Olha! Você acha que é assim que se morde um sanduíche! Vergonha, hein!
— Amigo, por favor, me dê licença, sim?! Tive um dia chato demais e você está me incomodando! Será que você pode sair?! — O estranho começou a chorar em silêncio. Ricardo ficou de boca aberta, sem acreditar.
— Então é isso?! A gente vem aqui e tenta ajudar o próximo, e tudo o que a gente consegue é grosseria?! Será que você não poderia me ouvir?!
— Olha, eu só quero comer meu lanche em paz! Você está… — O estranho levantou-se repentinamente e correu para fora da loja, em prantos.
Todos olharam, com clara reprovação, para Ricardo, que ficou mais uma vez de boca aberta, sem entender nada. Revirou os olhos, dando de ombros para aquela situação bizarra. Então, Deise Camargo, uma jovem que estava com seu namorado, falou para Ricardo: — Você é uma vergonha! Olha só a maldade que você fez com aquele pobre coitado! Ele só queria te ajudar!
— Moça, e eu com isso? Eu só quero comer meu lanche!
— Ei! Ei! Ei! — interveio o namorado, Lucas Sampaio Correa — Olha como tu fala com minha namorada!
— Oras! Ela vem se meter onde não foi chamada!
— Grosso! — Gritou Deise, que também saiu chorando da loja. Lucas deu seu olhar mais ameaçador para Ricardo:
— Você deve ser um monstro mesmo! Amor! Espera!
Ricardo não tinha forças para ficar aborrecido; estava cansado demais para isso. Mais uma vez deu de ombros e tentou voltar a comer. Quando estava perto de terminar seu lanche, Marcela lhe tocou o ombro.
— Olha! Calma! — Ricardo apenas tinha virado o rosto para ver quem era — Vejo que o senhor está meio exaltado e está causando um certo… desconforto nos clientes aqui. Está vendo aquela mãe ali com sua filha? As duas estão com medo do senhor.
— Mas como assim? Será que eu estou parecendo mesmo um ogro? — Ricardo começou a duvidar de seu estado mental.
— Calma, senhor! Você não precisa agir desse jeito!
— Mas de que jeito?! Meu Deus do céu! O que está acontecendo?! Eu só queria comer meu lanche em paz!
— Olha, senhor, vou ter que pedir para o senhor se retirar da loja. Assim não dá mais. Por favor…
Era a terceira vez que Ricardo ficava de boca aberta. Estava em choque. Levantou-se, meio sem graça, e saiu para o seu ponto de ônibus. Viu num canto a Deise, que chorava copiosamente nos braços de Lucas. Aparentemente, ela repetia, com visível raiva: “Aquele monstro!” .
Por sorte, seu ônibus não demorou muito para vir. O motorista, assim que viu Ricardo subir, perguntou: — Dia difícil?
— Dia estranho, cheio de gente maluca.
— Amigo, estranho seria se o dia estivesse normal, com gente sã. — Ricardo achou esquisita a colocação do motorista, que logo continuou: — Vê só! Outro dia disseram que teve uma invasão alienígena na Terra! Vê se pode! Trabalho todo dia, desde as 04 da manhã até as 04 da noite! E tô aqui, levando e trazendo gente bizarra! Vá! Vá sentar, meu jovem! Porque o piloto aqui tá com pressa!
Ricardo foi se sentar ao lado de uma senhorinha, dona Jacinta Gonçalves, mas ela logo se levantou e foi para outro lugar. O jovem começou a imaginar que seu rosto deveria estar completamente transtornado. Afinal de contas, um dia difícil de trabalho pode deixar qualquer um com uma aparência bestial. Mas aquilo não fazia sentido; outras pessoas também estavam cansadas, e elas pareciam normais. Então Ricardo pensou no que o motorista falou sobre invasão alienígena. Aquilo era o cúmulo do absurdo. Tudo bem que teve algumas notícias sobre uma crise mundial há alguns meses, mas isso também era normal; o mundo está sempre em crise. Mas, alienígenas… isso era demais. Enquanto pensava nisso tudo, acabou adormecendo.
Acordou faltando apenas umas três paradas para descer. O ônibus estava quase vazio e parecia ter atravessado o país inteiro. Fez sinal e desceu, pontualmente, às 21h32min. Olhou o relógio e suspirou. Só conseguia pensar no belo banho que tomaria e na sua cama macia. No dia seguinte, seria um novo expediente, mais um dia semelhante a todos os outros.

