Dizem que em tempos remotos a humanidade vivia bem. Uns coletavam, outros caçavam, e tinham aqueles que plantavam. Era uma vida simples e sem muitos problemas; talvez uma fera selvagem fosse uma grande crise, mas nada tão absurdo. Então, a humanidade cresceu e passou a viver em grandes aldeias, que logo se urbanizaram. Foi naquele período que apareceu Rogério.
Certamente você deve estar se perguntando como é possível que tenha existido um Rogério em tempos tão remotos. Mas há uma resposta para isso — sempre há respostas para qualquer coisa, mesmo que seja errada. Mas, segundo os estudiosos, esse nome remonta a uma tradição antiquíssima, fundamentada na oralidade dos primeiros hominídeos.
Bom, de qualquer modo, Rogério vivia uma vida pacata em sua aldeia, que apenas crescia. O trabalho da caça já não era tão necessário, e a terra era bastante fértil. Ninguém tinha muito o que fazer e todos estavam felizes, porém o tédio tomava conta do pobre Rogério. O dito cujo passava horas olhando para o teto, pensando no que fazer. Observava os outros na rua, todos felizes em seus agradáveis afazeres, e se incomodava. “Como era possível todos viverem sem preocupações, sem prazos!“, pensava. Algo precisava ser feito.
Algumas invenções surgem, infelizmente, para o mal do outro, mesmo que exista uma aplicação para o bem. Podemos citar, como exemplo, a energia atômica, que é capaz de dizimar cidades, mas que também serve para gerar eletricidade. Outra invenção que se enquadra nesse aspecto é a escrita.
Bem… na necessidade de organizar e administrar a vida alheia, Rogério inventou a escrita… e as planilhas. Primeiro foi num pedaço chinfrim de madeira, mas, depois, evoluiu para as famosas tabuinhas de argila. No seu ímpeto de levar a humanidade para lugares que ela nunca pediu para estar, espalhou sua sandice entre os seus, que receberam, na inocência de sua ignorância, aquela nova invenção com grande alegria e espanto. Não quero dizer que Rogério foi mau. Ele teve boa intenção, já que estava entendiado e precisava inventar alguma coisa.
Apesar de a burocracia ter evoluído a partir do mau uso da escrita, existiram heróis e heroínas anônimos que, aborrecidos com os formulários cada vez mais extensos e repletos de tédio, deram um uso digno — e correto — para as letras. Começaram por satirizar os formulários; depois, acharam interessante escrever cartas e outras fofocas. Então vieram os livros, com suas grandes epopéias e aventuras1.
Como era de se esperar, ninguém sabe o que aconteceu com Rogério. É dito que, após sua morte, foi celebrado como uma divindade pelos chefes de aldeias e dos emergentes empreendedores que começavam a surgir nas primeiras cidades. Posteriormente, foi retratado como uma criatura maligna, de ares tirânicos. Mas, com o tempo, o culto ao rogerismo foi se perdendo e o próprio nome Rogério foi esquecido. Porém, por um acaso do destino, o antigo nome reapareceu na história mais recente, mas em outro contexto e com outro significado.
Apesar de o Rogério original ter sido esquecido dos Anais da História, seu fantasma e seu legado de horror, tédio e demora, ainda persistem, sendo visto em governos, em instituições públicas e privadas, e no atendimento ao consumidor.
- Algumas más línguas afirmam que a origem dos livros técnicos pode ser atribuída aos discípulos de Rogério, os rogeristas. ↩︎

