O Andarilho

As coisas iam mal para Yibo. Estava magro e amarelado e, além disso, sua despensa estava recheada com poucos pães e uns dois garrafões de água. Debruçado sobre sua mesa empenada, observava sua única moeda de prata, que reluzia tristemente a sua frente; não havia mais saída, nem mesmo solução. Yibo se sentiu enjoado.

Levantou-se com raiva e quis socar a parede, mas não seria uma boa ideia se machucar naquela situação. Médicos e remédios são caros, valem mais do que cinco moedas. Ficou de cócoras e chorou com as mãos na cabeça. Então, antes de pensar em alguma bobagem, ouviu alguém bater em sua porta.

Ignorou uma vez, e mais uma vez as batidas vieram. Eram insistentes e, estranhamente, atrativas. Ficou de pé e tudo estalou. Chegou à porta e engrossou a voz:

— Não acha que já está tarde para bater na porta dos outros?

— Nunca é tarde para um hospitaleiro, que sabe como é cansativa a jornada de um andarilho.

— E quem disse que sou hospitaleiro? E como vou saber se você é um andarilho mesmo?

— Amigo, sua porta não é das melhores, e mesmo assim estou batendo nela. Eu não invado a casa de ninguém. Se não quiser me hospedar, tudo bem. Talvez o teu vizinho queira.

As palavras do homem soavam estranhas. Tinham um tom gentil e, ao mesmo tempo, firme e autoritário. Yibo, tomado por impulso e curiosidade, abriu a porta para ver o tal andarilho.

Parecia ser um homem simples, com as vestes sujas de poeira. Seu semblante era austero e amável, e Yibo não teve muita coragem de olhar em seus olhos.

— Então?… Vai me convidar para entrar?

— Bem… é… Tudo bem. Está tarde e não é muito seguro ficar perambulando por aí a essa hora. Eu só não tenho…

— Não se preocupe com nada, amigo.

— Você não carrega bolsa?

— O que eu trago já me basta. — O homem sorriu e Yibo baixou a cabeça, constrangido. Ele não sabia o que estava acontecendo. — Então, Yibo, como vai a vida? Anda sentindo muitas dores?

— Como você sabe o meu nome? Eu nunca te vi.

— Sei de muitas coisas. E sei que estou com fome e com sede. Você tem algo para oferecer?

Yibo não sabia se ficava com raiva do andarilho ou se ficava constrangido. As suas falas o deixava desnorteado. Porém, sentiu-se triste por saber que não tinha muito o que oferecer. O andarilho o observou e pareceu entender o que se passava por sua cabeça.

— Traga o que tem e ficarei satisfeito. E você, também coma. Está magro.

Yibo obedeceu o andarilho sem entender bem o porquê. Se fosse qualquer outra pessoa, já o teria colocado para fora. Após comerem a parca refeição, Yibo se sentiu melhor e mais disposto.

— Me diga: quem é você? Por que você parece me conhecer?

— Para tudo existe um tempo específico, Yibo. Em outra ocasião teremos essa conversa. Agora preciso descansar. Sairei de manhã cedo. Viagem longa.

— Desculpe perguntar, mas para onde é essa viagem.

— Irei visitar o rei de Madaluzia. Preciso conversar com ele. Já está velho e seus filhos não são confiáveis. Agora, me deixe aqui mesmo no sofá. Vá descansar.

Yibo se deitou em sua cama, morrendo de medo e se sentindo seguro ao mesmo tempo.

No dia seguinte, Yibo levantou-se bem cedo. O andarilho já estava de pé e tinha preparado um belo desjejum. Yibo ficou surpreso com isso, pois não tinha nada daquilo em sua casa.

— Não se preocupe, meu jovem. Isso é para você. Já estou de saída. Deixei uma quantia de dinheiro na mesa. Espero que seja o suficiente para compensar o… incômodo que te causei. Até breve.

O café da manhã estava uma beleza. Pães, biscoitos, bolos tudo da melhor qualidade. No entanto, a ausência do andarilho lhe causou uma certa melancolia. Então Yibo pegou a caixinha onde estava o dinheiro e se assustou com a quantia. Era muito mais do que precisava. O jovem se convenceu que o andarilho deveria ser alguém importante e abastado.

Depois de um bom tempo olhando para aquelas moedas de ouro e de prata, Yibo decidiu encher sua despensa e reformar sua casa. Isso não passou desapercebido pelos seus vizinhos e amigos. Todos estavam curiosos para saber como ocorreu aquela mudança maravilhosa. Mas o jovem desconversava.

O tempo então passou, e Yibo soube fazer bons negócios, enriquecendo de vez. Transformou sua casa numa mansão e já não se lembrava dos tempos de pobreza. Encheu sua casa com gente rica, e fazia festas quase todo final de semana. Sentia-se vitorioso e desprezava quem falia, ou quem não conseguia sair da miséria.

Foi num dia de festa, enquanto caía uma forte chuva, que Yibo ouviu sua porta bater. Ora, ninguém batia sua porta, e todos os seus “amigos” estavam lá. Yibo teve um choque ao ver o andarilho.

— Olha! Você está dando uma festa! Estou convidado? — Yibo baixou a cabeça, constrangido. — Você não irá me convidar? É por causa dos teus amigos? Eles terão vergonha de ver um homem molhado de chuva entrar em sua… mansão?

Yibo não respondeu.

— Yibo, por que você encheu sua casa com essa gente? Você sabe que todos eles são bajuladores, e que na primeira oportunidade roubarão tudo o que você tem. A quem você quer impressionar?

— Meu Deus! Quem é você?! Por que me incomoda tanto? E por que eu não consigo…

— Me expulsar? Você ainda tem um bom coração. Ele tá soterrado debaixo de toda tranqueira que você arrumou. Irá me deixar entrar?

— Entre…

Assim que o andarilho entrou na casa de Yibo, todos os convidados da festa olharam para a porta. O terror de todos eles foi instantâneo, e logo se puseram a sair. Quando a casa finalmente ficou vazia, o andarilho pegou uma vassoura e um esfregão e os entregou para Yibo.

— Vamos limpar essa casa meu jovem.

Os dois passaram o resto daquele dia limpando a casa e colocando tudo em ordem. Quando a limpeza terminou, Yibo, apoiando-se no esfregão, perguntou:

— Você vai me dizer quem você é?

— Apenas se você fizer uma festa de verdade.

— Como assim?

— Chame os que foram um dia como você. Convide os pobres e seja generoso com eles. Vá chamá-los, e não se preocupe com a organização da festa. Eu mesmo prepararei tudo.

Yibo, um pouco desanimado, saiu pelas ruas chamando todos aqueles que um dia ele desprezou. Muitos ficaram desconfiados, mas aceitaram o convite. Quando os convidados chegaram à mansão, se alegraram por saber que o andarilho estava lá. Yibo teve a impressão de que todos ali conheciam aquele homem estranho.

— Ah! Se você tivesse dito que ele estaria aqui, eu não teria desconfiado! — disse um, todo sorridente, para Yibo.

— Teremos uma festa de verdade! — gritou outra, toda alegre.

Quando Yibo olhou para o andarilho, percebeu que ele brilhava, e aquilo o encheu de temor. Yibo não precisou perguntar quem era aquele homem. A resposta já havia sido dada com um singelo sorriso e um olhar profundo.

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