Aparentemente, é típico acreditarmos em coisas bizarras. Uns insistem em dizer que a Terra é plana, enquanto outros creem que vermes causam diabetes. Ainda há aqueles que creem que o diferente deve ser destruído. Absurdo, não é? Pode ser que essas pessoas sejam carentes, tenham necessidade de pertencer a algum grupo, ou sejam mal-intencionadas… vai saber… No entanto, o que me pesa no coração é o fato de que estudar, ser gentil, compartilhar informações confiáveis e, por fim, praticar boas obras não parece ter efeito nenhum. As pessoas continuam amando a Desinformação, a velha e enganadora Mentira, e adoram a incivilidade de estarem sempre certas. O ego, o engano e a fama dominam seus desejos. Então, por que se preocupar em construir uma sociedade mais justa? Por que tem gente que se esforça, e até sonha com uma utopia onde todos, finalmente, se entenderão? Por que quem se considera cristão deveria se esforçar por um aparente nada? O Destino é inexorável e a tragédia é certa. O futuro é sombrio, e lutar contra isso é sonhar um sonho trágico. É esmurrar a ponta da faca até perder a mão. Acreditar que algo pode mudar é triste. Triste, mas esperançoso.
Pode ser que toda esperança e toda fé sejam fundamentadas no amor. Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, no capítulo 13, afirma que sem amor todas as coisas perdem o valor, e Edgar Morin, ao falar sobre a missão do professor, ecoa o apóstolo ao dizer que “onde não há amor, só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio, para os alunos” (Morin, 2022, p. 102)1.
Amar é um caminho difícil, pois o amor verdadeiro não fecha os olhos para as angústias da vida, mas as reconhece. Apesar de ser bem consciente a respeito dos maus, é capaz de olhar para além deles; é capaz de olhar para além da tragédia. É como se o Amor fosse aquele sonhador que vislumbra um bom futuro, porém anda com os pés firmes no chão, percebendo e entendendo a realidade presente sem se iludir.
Talvez se possa afirmar que quem ama tem fé. Não fé no sentido de crença, mas fé no sentido de certeza. Certeza de que algo bom acontecerá, mesmo que não se tenha provas disso. E isso leva a esperança.
Em tempos de ignorância e de maldade desenfreada, amar ao próximo, seja com ensino em um mundo de gente soberba e anti-intelectual, ou com gentileza no meio dos rudes e grosseiros, é um ato de resistência e um farol no meio do mar revolto. A fé, que não é separada do amor, dá a certeza de um futuro esperançoso; um futuro que, provavelmente, eu e você não veremos.
Na carta aos Hebreus, no capítulo 11, versículo 13 é dito o seguinte sobre os chamados heróis da fé: “Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra”. A tragédia existe pelo fato de não conseguirmos viver para além dela. Muitas vezes não veremos os resultados das boas obras praticadas, entretanto, o esforço pelo bem realizado hoje frutificará em um determinado amanhã. A maldade não tem como parar o Amor, que de tragédia em tragédia floresce mais forte. Jesus Cristo sabia que seria crucificado. Ele conhecia sua tragédia, mas sabia o que viria depois. Pregou a salvação e foi pregado na cruz, e a esperança atravessou a tragédia, ressuscitando ao terceiro dia.
Portanto, por mais que tudo pareça perdido, devemos continuar praticando o bem, olhando para além da tragédia, tendo fé de que, após as sombras há um futuro esperançoso, que será vivido, ou vislumbrado, por gente que não conhecemos, mas que se lembrarão do exemplo que damos hoje.
- MORIN, Edgar. A Cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2022 ↩︎

