A Amiga

Foi um relacionamento de seis anos e oito meses. Muita coisa aconteceu naquele período; muitas alegrias e tristezas, além das brigas e das inúmeras reconciliações. Isadora estava arrasada, mas foi decisão dela. Não dava mais, e Rogério não parecia se importar. Foi duro terminar e a sensação de culpa, de que algo poderia ter sido feito para consertar aquela situação, a perturbava. Isadora estava aflita e precisava ouvir algum conselho. Por isso foi procurar Elisa.

Elisa não era a melhor amiga de Isadora, mas esta tinha uma afeição muito grande por aquela. A Lis, como todos a chamavam, era a conselheira do grupo, aparentemente, dois anos mais velha que suas companheiras. Há quem diga que ela é sempre dois anos mais velha que qualquer um.

Marcaram de se encontrar na Praça da Cidade, após o almoço. Apesar do frio, o dia estava bonito, com o céu limpo. Elisa estava igualmente deslumbrante, com um sorriso que fazia o seu rosto brilhar. Quando Isadora a viu, ficou admirada. Todos sempre ficam admirados diante da Lis.

— Ai, miga! Fiquei preocupada com a sua ligação! O que houve? — A voz de Elisa era estranhamente doce e anasalada. Isadora tentou responder, mas começou a chorar. — Ai, vem cá! Não fica assim, não, miga! Vem, vamos sentar aqui. Me conta, o que aconteceu?

— Eu… eu… terminei com o Rogerinho! — Mais lágrimas e coriza escorreram.

— De novo, miga?!

— O que você disse?

— Nada! Poxinha! Vocês eram tão fofinhos juntos!

— Ai! Eu não sei o que eu faço, Lis! O Rogerinho é um fofo, mas também é um desgraçado! Seis anos juntos! Seis! E ele… ele… eu não sei o que ele quer! Falo dos meus sonhos, do futuro e talz, e ele nada!

— É miga… talvez você tenha tomado uma decisão certa.

— Certa?! Ele é o amor da minha vida, Lis! Minha vida acabou! Nada mais faz sentido!

— Ai, miga! Não é pra tanto também, né!

— Lis, você não tá me ajudando! Ai, até parece que o universo está contra mim! Tudo o que eu queria era ser feliz com o Rogerinho. Até a sirigaita da Sueli é feliz com aquele traste do João. Eu merecia um pouquinho de felicidade!

— É… você tá exagerando, Isa. O universo não está nem aí pra você.

— QUÊ?!

— Sim. É isso mesmo. O universo não está nem aí pra você. Mas existe uma coisa interessante nisso. — Os olhos de Isadora estavam esbugalhados, e ela não sabia se xingava Elisa ou se esperava ela falar. — Você vai entender o ponto que quero chegar, garota! Olha, se você desse certo com Rogerinho, ou não, isso não faria diferença nenhuma no universo ou na vida de todo o povo da Terra.

— O que você está dizendo?! Onde você quer chegar com isso?!

— O Cosmos é muito interessante, miga. Qualquer escolha que você fizer agora não vai mudar em nada o Destino de Todas as Coisas. E você aí, dizendo que o Universo está contra você. Mas o que é interessante é que, mesmo que suas escolhas sejam insignificantes no Grande Palco do Cosmos, ainda assim, elas compõem o quadro. Esse término, que diga-se de passagem, espero que seja definitivo, compõe uma fração que é, ao mesmo tempo insignificante, significante na História de Tudo.

— Eu só queria que você me ajudasse… e isso não tá parecendo ajuda!

— Tudo o que fazemos, ou deixamos de fazer, passa a compor a estrutura da Existência. Miga, eu não quero te ofender e nem ser insensível, mas nossa vida no Palco da Existência não passa de um sopro, e você preocupada com um futuro que nem seria tão bom assim.

— Quem é você para falar isso?!

— Eu sou apenas uma pessoa mais velha que sabe do que está falando. — Os olhos de Elisa brilharam, e já não eram mais castanhos. Isadora sentiu medo naquela hora. — É bem provável que o Universo flutue em um imenso buraco negro de outro Universo; quem sabe? Além disso, há inúmeras estrelas que podem fazer o nosso sol parecer poeira. Então, o que é o tamanho dos nossos problemas pessoais? Que diferença faz? Mas o que é bonito é que as coisas pequenas e sem importância, como esta conversa de agora, passam a fazer parte da Grande Música do Cosmos. Tudo importa, mesmo que seja dispensável. — A voz de Elisa mudou e ficou mais eloquente, parecendo vir de todos os lados, não apenas de sua boca. Seu rosto se transformou, e já não era mais possível ver sua fisionomia. Via-se apenas estrelas, nebulosas e outras coisas fantásticas do espaço. — Miga, quero que você entenda que a Existência é infinita, tanto para as coisas grandes quanto para as pequenas. Às vezes achamos que tudo o que acontece na nossa vida é uma grande coisa, mas isso não muda o Destino. Mas, mesmo que esse término passe desapercebido pela História, ele aconteceu e ecoará, ainda que em uma frequência pífia, nos recônditos do Universo. Portanto, relaxe e viva sua vida da melhor maneira possível, e pare de acreditar que você deveria ter feito mais pelo traste do Rogerinho. E o Universo não tem nada a ver com a sua vida.

Quando Elisa voltou ao normal, Isadora estava assustada e grudada ao banco de madeira.

— O que acabou de acontecer agora? Seu… seu rosto… ele… mudou… e… e…

— Do que você está falando bobinha? — Elisa sorriu, ajeitando uma mecha de seu cabelo. — Só acho que você não deve voltar pro Rogerinho, que, convenhamos, né? É um vagabundo.

— Mas e esse papo… de universo, cosmos…

— É pra você parar com essa mania de voltar com quem não presta. Pra você viver, garota!

— E você… precisava falar aquilo tudo pra isso?

— Ai, miga! Que coisa chata! Às vezes a gente precisa de um susto pra mudar. E você com essa mania de achar que tudo está contra você. Você tomou uma decisão certa e fica pensando em voltar atrás. Vamos viver! E vamos tomar um sorvete! Vamos!

Isadora já não estava mais triste com o término, mas, sim, em estado de choque. Ela nunca entendeu o que aconteceu naquela tarde, e talvez nem tivesse capacidade de entender. Elisa era fora do comum. A amiga falava e falava, e suas palavras soavam sem sentido em sua cabeça. Ela só conseguia sentir o gosto do sorvete de morango. Quando se despediram, Isadora ficou pensando sobre quem era aquela pessoa que se chamava Elisa.

De qualquer modo, Isadora nunca mais retornou com Rogério, que ainda tentou reatar, diga-se de passagem. Ela passou a viver a vida de forma mais leve, e sabia que isso tinha a ver com aquele conselho bizarro da Lis. Nunca chegou a contar para suas outras amigas o que aconteceu, mas quando via Elisa, procurava evitá-la. Seu rosto, sempre tão belo, impunha um certo tipo de terror em Isadora. Lis, por sua vez, não parecia se importar, e estava sempre sorrindo e sendo meiga com sua voz anasalada.

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