II
Conhecer o bem e o mal e definir, para si mesmo, o que é certo e errado, não pareceu ser uma boa coisa para a raça humana — talvez não estivessem preparados para isso. Ora, desde que o ser humano passou a questionar a sua própria realidade e a natureza das coisas, tendo uma suposta consciência avançada, ele decidiu usar tamanho poder mental para se ver como senhor de si, não aceitando ninguém acima. Não é preciso dizer que tal atitude levou a discórdias, guerras e assassinatos.
E foi numa guerra de níveis monumentais que o pai de Otto Mastrini, Luca, foi morto. O corajoso capitão Mastrini, como Luca era chamado, não concordava com aquele conflito louco, no entanto, sentia-se responsável por seus amigos e compatriotas, por isso se viu obrigado a entrar naquela guerra. Viu muitos morrerem, e seu peito doía ao pensar que tudo aquilo era devido a líderes ambiciosos, que não viam limites para seus impulsos egóicos. Luca faleceu ao comandar uma potente fragata. Sofreu um forte bombardeio de pequenos aviões, e heroicamente se esforçou para salvar o máximo de vidas que podia. O capitão Mastrini deixou uma esposa e um filho de dois anos.
A resolução da guerra trouxe vitória para um lado e tristeza e derrota para o outro. Entretanto, com o fim das bestialidades, a tão desejada paz não veio; muito pelo contrário: o sentimento de ódio e mágoa predominou, tanto entre os derrotados quanto entre os vitoriosos. E foi naquele mundo dividido e complicado que Otto cresceu.
Quando Otto completou oito anos, sua mãe, Janaína, ficou gravemente doente. Eles não tinham muitas economias e o seu país parecia ter esquecido da família do bravo capitão Mastrini. Sem ter como conseguir tratamento adequado, Janaína logo morreria. E, de fato, não demorou muito para Otto se ver órfão.
O pequeno Otto passou por inúmeros abrigos e orfanatos, e a tristeza foi a sua companhia diária, além da fome. Havia outras crianças tão tristes quanto ele, mas muitas encontravam apoio umas nas outras. Porém, mesmo assim, existiam aquelas que preferiam a solidão, e Otto se compadecia delas. Foi então, num dia frio, enquanto Otto vagava por um beco e pensava nos solitários, que Etterbelle o encontrou.
Naquele tempo Etterbelle era só um rumor antigo, mas o menino lembrava das histórias que sua mãe contava. A criatura brilhante, de olhar meigo e de movimentos gentis, deu um longo e puro sorriso que fez o coração do menino aquecer. Otto gaguejou e gaguejou de tão deslumbrado que estava. Etterbelle então lhe deu um simpático “olá!”.
— Vo-você é a… a… Fada da Alegria! — Os olhos de Otto ficaram brilhantes com as lágrimas que começavam a brotar.
— Fada?! Hmm Não sei o que é fada… Se é coisa boa, então talvez eu seja isso! — O sorriso de Etterbelle era cada vez mais cativante. Então ela se inclinou bem para o garoto: — Você me parece ser um menino bem triste. O que quer que eu te faça?
A pergunta pegou o garoto de surpresa, e apenas uma coisa vinha em seu coração.
— Bem… Eu gostaria de ter meu pai e minha mãe de volta. Eu queria eles de volta… Mamãe dizia que papai era um bom homem… eu… eu queria os dois… eu queria ver papai… — O menino começou a chorar em silêncio. Então Etterbelle colocou sua delicada mão no rosto do menino, e, secando suas lágrimas, disse:
— Meu pequeno, infelizmente não posso reverter a morte. Mas posso recuperar a última lembrança que você tem de teus pais. Uma lembrança que está bem guardada numa parte esquecida da tua memória.
Então, na mente do menino apareceu claramente a lembrança de Luca e Janaína se abraçando e sorrindo um para o outro. Naquela memória Otto viu que seus pais o olhavam com profundo orgulho. Os pensamentos dos dois ecoaram na cabeça da criança, e eram melodiosamente harmonizados, e diziam: “Ele vai ser um bom rapaz!”. Após isso, Otto viu os brilhantes olhos de Etterbelle, que confirmaram os pensamentos dos pais:
— Sim! Você é e será um bom rapaz! Mas haverá dificuldades e percalços em teu caminho; haverá alegrias e tristezas… E você sentirá raiva, Otto… por muitas vezes. Mas não perderá a virtude. Será sensível às coisas da vida e terá uma bela família… E que família! Eu sei que você não viveu o tempo que desejava com teus pais; mas eis que te dou uma alegria contagiante! Ela será sombra e abrigo para quem estiver triste. A felicidade que te dou é temperada, sim, com um pouquinho de tristeza. Isso faz com que as coisas tenham sentido. Alegria pela alegria é fútil, e não te faz pensar a vida. Seja feliz! — A voz de Etterbelle era suave e pareceu penetrar no fundo do coração do menino. A criatura sorriu, e sua luz e perfume o envolveram, e logo uma paz, além de consciente alegria, encheu o interior de Otto. Naquele momento o menino pareceu ter entendido algo da vida. Etterbelle o observou com visível prazer.
— Por alguma razão, eu me afeiçoei a você, menino!
— Ah! — A felicidade de Otto era transbordante — Então eu… então eu posso te apresentar aos meus amigos? Poxa! Eles precisam tanto disso que você me deu!
Etterbelle sentiu uma triste pontada no coração ao ouvir aquele pedido tão sincero. Já era arriscado demais aparecer para o garoto, e seria ainda mais perigoso aparecer para outros tantos.
— Ai! Otto! Eu não posso fazer isso. Eu queria muito te acompanhar e alegrar teus amigos, mas… Olha, meu pequeno, tem gente que ainda me caça nesse mundo. Gente que acha que pode me controlar; que me vê como uma espécie de objeto que realiza todo e qualquer tipo de desejo. Se eu aparecer demais… Eu não quero nem pensar… — a voz de Etterbelle era doce, mas continha uma pitada de medo. Otto pareceu compreender, apesar de frustrado:
— Ao menos seria legal ter você por perto para conversar… Os adultos não me dão muita atenção… — Etterbelle estava sensibilizada pelo menino e seu coração de manteiga logo derreteu:
— Tudo bem, pequeno Otto! Sempre quando quiser conversar, vá para um lugar mais discreto, como este beco. E não precisa me chamar; eu saberei te encontrar.
Otto deu um grande sorriso e abraçou fortemente Etterbelle. A criatura sentiu ternura naquele gesto, e beijou a cabeça do menino tal qual uma mãe faz com seu filho. Depois disso, o garoto voltou sorrindo para o abrigo, e escondeu de todos o motivo de tão grande alegria.

