Etterbelle Deve Ser Livre

III

Luciano Cambota era um banqueiro bem sucedido; tinha casas, carruagens e bons negócios. Era um homem abastado e respeitado, mas, no alto de seus quarenta anos, vivia solteiro e amargurado. Ora, as raízes de sua aflição estavam em sua juventude, pois desde novo foi fissurado por Leila Amélia, mulher rica, dona de seu próprio nariz e cheia de pretendentes. A paixão de Luciano era tão grande que ele não se cansava de cortejar a então jovem. Alimentava-se de fracas esperanças de que, um dia, Leila cederia e o aceitaria como namorado e, por fim, como marido. No entanto, Leila nunca viu interesse no pobre rapaz.

De repente Leila se casou com um rico estrangeiro e foi morar em outro país. Isso pegou a todos de surpresa, principalmente a Luciano. Enquanto a inalcançável Leila foi viver uma vida feliz e rica, o mundo de Luciano pareceu desabar. Desde então o banqueiro ficou remoendo o que chamou de perda, e povoou sua mente com ilusões do que poderia ter sido. Tais pensamentos, cada vez mais obsessivos e obcecados, o fizeram ignorar muitas outras mulheres que se interessaram, genuinamente, por ele. E foi assim até chegar aos seus quarenta anos.

Mas Luciano não deixava transparecer suas angústias. Diante de todos, era agradabilíssimo e muito simpático, sempre com um sorriso leve no rosto. Procurava até mesmo ser generoso, pois isso lhe trazia muitos elogios e aumentava o seu prestígio na comunidade. Porém, quem prestasse bem atenção aos seus olhos, perceberia que havia algo de errado. Por isso Luciano não procurava perder muito tempo com conversas longas e individuais. Quando estava sozinho, sua fisionomia leve se transformava em algo atormentado, e seus pensamentos se voltavam unicamente para Leila. E foi num momento solitário, com a mente tomada por sua obsessão, que Luciano viu, pela sua janela, o brilho de Etterbelle, que caminhava ao lado do pequeno Otto.

O senhor Cambota não acreditava no que estava vendo. Para ele, a Felicidade Inesperada, a tal da “Fada da Alegria”, era apenas uma lenda quase esquecida que se contava para crianças. Apertou os olhos por duas vezes, e observava, abismado, a criatura etérea e divinal. Tomado por uma alegre ambição, pulou sua janela como um adolescente, e correu na direção do brilho, assustando tanto a Etterbelle quanto a Otto.

— Mil perdões! Mil perdões meus caros amigos! — Luciano arfava. Fazia tempo que não corria daquele jeito — Meu Deus!… Eu não acredito que é você!

Etterbelle e Otto sentiram medo de Luciano, que usava apenas um pijama de bolinhas.

— Não tenham medo, meus caros! Me desculpem por eu estar vestido assim! É que… meu Deus! É a Fada da Alegria! É exatamente do jeito que contam as histórias! Isso é fantástico! Você…você é real! — Etterbelle se incomodou profundamente com os olhos sedentos de Luciano, e, deixando Otto atrás de si, procurou se afastar.

— Olha, senhor… eu não sei o que você quer, mas não posso te oferecer nada no momento. E é bem inapropriado você estar na rua vestido desse jeito. — a voz de Etterbelle era firme e metálica. Otto então interveio, complementando:

— Moço, está realmente frio e minha amiga precisa ir para casa agora. — Luciano ignorou completamente o garoto e, voltando-se para Etterbelle, disse, com ansiedade:

— Por favor, minha dama, conceda-me felicidade! Eu a quero mais que tudo! Eu quero minha preciosa Leila!

— Senhor! Eu preciso ir embora! Pare de falar essas coisas! — respondeu Etterbelle, se afastando ainda mais do banqueiro. Porém este, avançando com voracidade, protestou:

— Mas você é a Fada da Alegria! Atenda ao meu pedido! Atenda ao meu desejo! Agora!

— As coisas não são assim, homem! Otto, volte para casa! — Após dizer aquelas palavras, Etterbelle desapareceu num piscar de olhos.

O banqueiro, revoltado e transtornado com a recusa de Etterbelle, sentiu ódio. Procurou pelo menino, mas Otto já havia se embrenhado em um beco e desaparecido na escuridão da noite. Bufando e vermelho de raiva, Luciano prometeu achar tanto o menino quanto a Etterbelle; ele iria fazer o que fosse preciso para ter seu desejo atendido.

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