Etterbelle Deve Ser Livre

IV

Havia na cidade uma loja de aparência estranha que Luciano conhecia bem. Tempos atrás o banqueiro alugara tal estabelecimento para um curioso homem de terno e gravata, que insistia em não revelar seu nome; gostava apenas de ser chamado de Comerciante. Ora, naquela tarde Luciano decidiu fazer uma pequena visita a ele e, ao abrir a porta, um delicado sino soou. O Comerciante estava no balcão do fundo, olhando sinistramente para a entrada, como se esperasse pela chegada de seu senhorio. O banqueiro sentiu certo calafrio ao ver aqueles olhos escuros.

— Ah! Se não é o meu precioso locador! Entre! Entre e seja bem-vindo a minha humilde loja! No que posso te ajudar? — A voz do Comerciante era grave e curiosamente confortável de se ouvir. Ele deslizou até Luciano como um fantasma.

— Eu acho que é a primeira vez que vejo como é tua loja. — Luciano pegou um recipiente vermelho ricamente ornado de detalhes dourados em uma das prateleiras, e começou a analisá-lo — Você vende… objetos interessantes.

— Interessado em gênios, meu caro? — Perguntou o Comerciante, retirando, delicadamente, o recipiente das mãos de Luciano.

— Ha ha! Gênios! Essa é uma forma de dar mais valor às tuas bugigangas?

— Se você achasse que tudo isso são bugigangas, não viria aqui, meu caro senhor. Cada objeto que vendo é especial… e creio que você está em busca de algo… especialíssimo. — A sedução na voz do Comerciante pareceu mexer profundamente com Luciano.

— Você conhece algo sobre a tal da Etterbelle?

— Etterbelle? Hmm… Ela é uma criatura bem peculiar… Mas já faz tempo que não ouço nada dela por aí. — O estranho e pálido homem abriu um sorriso tenebroso — Meu caríssimo senhorio, você espera encontrar alguma bugiganga para presenteá-la? Olha, ela pode ser bem exigente.

— Eu só quero saber se você a conhece!

— E por que acha que eu, um humilde comerciante, a conheceria? — Luciano fez menção de responder, mas se calou. O ambiente ficou mais sombrio, e os olhos do Comerciante pareceram ficar mais escuros que o normal — É… seria interessante tê-la em minhas coleções. Eu já a vi por aí, mas isso faz tempo… muito tempo, por sinal. Não a conheço pessoalmente, mas sei que é de natureza incerta… Apenas aqui vi tal criatura. Sei que ela concede felicidade para qualquer um que ela deseje. É isso que sei sobre ela. — Um silêncio mórbido caiu sobre a loja, como se o mundo não existisse do lado de fora — Meu caro senhor Cambota, sejamos francos: na superfície você quer acreditar que vendo bugigangas e outras parafernálias para uns moleques chatos. Mas você sabe, por mais que negue, que vendo coisas realmente especiais. Se não fosse assim, você não viria aqui, tão de repente para perguntar algo tão específico.

— Imaginei que pelo teor da sua loja…

— Diga o que quer, meu senhorio.

— Bem… Está bem! Já ouvi por aí que teve gente que tentou capturar Etterbelle, e que em alguns casos, quase conseguiram. Eu… eu… queria saber se você tem… meu Deus do céu, isso é loucura! O que eu estou fazendo aqui?!

— Você quer saber se eu tenho algo que ajude a capturá-la? É isso? Isso eu tenho, com toda a certeza. E esses caçadores que você mencionou eram uns inúteis. Conheço-os bem. Mas… antes de eu te mostrar o produto para capturá-la, quero saber como fará para achar essa criatura? Está muito certo de que pode encontrá-la; vejo em teus olhos.

— Apenas tenho uma forma de encontrá-la. Agora, onde está esse tal produto?

O Comerciante pareceu deslizar para um lado, sumindo em seguida. Isso deixou o banqueiro completamente assustado, e sua cabeça começou a girar; era como se a realidade se desfizesse ao seu redor. Então, em questão de segundos, a realidade se reestabeleceu e o Comerciante reapareceu carregando uma pulseira prateada.

— Mas… mas… o que aconteceu?!

— Fui buscar uma das minhas “bugigangas”. Tome, segure isto. — Luciano pegou a pulseira, que era muito leve. Percebeu que havia algumas coisas escritas nela. O Comerciante então lhe falou: — “A sua vontade é oprimida, e a materialidade é exigida”, é isso que está escrito. Se conseguir achar Etterbelle, coloque isso em um de seus pulsos, e ela não conseguirá desaparecer. Além disso, ela se sentirá obrigada a te seguir, mesmo que não queira.

Luciano ficou olhando para aquele objeto, sem acreditar muito.

— Como vou saber que isso funciona?

— Apenas coloque em um dos pulsos dela. — respondeu o Comerciante com um sorriso macabro. — Depois que ela tiver sua vontade subjugada, aconselho enjaulá-la. Só por precaução. E… sobre o pagamento… — Luciano sentiu uma pontada no peito ao ouvir isso — He he! Não se preocupe, meu caro senhorio, não vou pedir tua alma ou coisa do tipo. Quero apenas que me entregue Etterbelle depois de usá-la.

— E se eu não quiser entregá-la?

— Você se enjoará dela. Quando isso acontecer, entregue-a para mim. Eu espero o tempo que for preciso.

Luciano de repente se sentiu impelido a sair da loja. Era como se uma força oculta o expulsasse dali. O Comerciante, por sua vez, retornando para o seu macabro balcão, esboçou um sorriso enigmático enquanto seu senhorio fechava a porta.

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