Etterbelle Deve Ser Livre

V

Etterbelle se tornou muito amiga de Otto, e, sempre que podiam, se encontravam no alto de prédios, ou em cemitérios.

O menino gostava muito de conversar e de se abrir com Etterbelle, que sentia um imenso prazer em estar com ele. Após cada conversa, Otto voltava mais maduro e isso logo transpareceu para os adultos, que passaram a enxergá-lo como muito inteligente e responsável. Isso lhe trouxe muitos benefícios, até que foi adotado por um gentil casal de professores que vislumbrou um futuro cheio de possibilidades para o garoto. Mesmo vivendo uma vida, na medida do possível, feliz, Otto nunca deixou de se encontrar com a Felicidade Inesperada.

No entanto, quando Otto tinha seus onze anos, Luciano Cambota conseguiu reencontrá-lo. O banqueiro se lembrou do rosto do menino e foi falar com ele.

— Ei, garoto! Que bom que te achei! Não está lembrado de mim? — Apesar da simpatia, havia uma sombra de tormento no rosto de Luciano — Como demorei para te achar!

— Me… desculpe, senhor. Não posso falar com estranhos. — Otto tentou ir embora, mas Luciano agarrou o seu braço e disse, ainda mantendo seu sorriso: — Não! Não vá agora! Olha, garoto, preciso muito que chame a Fada da Alegria para mim. Ela ainda tem falado com você?

— Me solte! Ai! — Otto conseguiu se desvencilhar de Luciano, e deu um chute na canela do homem. O banqueiro, distraído com a dor, não viu para onde o menino correu.

— Moleque maldito! Ainda vou descobrir onde você mora e vou infernizar a sua vida! Etterbelle deve ser minha!

Otto foi direto para casa, chorando. Fernando e Yolanda, seus pais adotivos, ficaram assustados quando viram o estado do menino. Quando este lhes revelou o que tinha acontecido naquela tarde, o casal, revoltado, foi até à polícia para denunciar o senhor Cambota. No entanto, o delegado Aurélio não quis aceitar as acusações.

— Como assim você não pode investigar o que esse banqueiro fez?! — Esbravejou Fernando, sendo seguido por Yolanda: — Se eu colocar as mãos naquele salafrário eu…

— Calma, meus caros! Calma!… — a voz de Aurélio era irritantemente suave — Vocês têm somente o relato de uma criança. O senhor Cambota é incapaz de fazer maldade para uma mosca. Será que o filho de vocês não está só querendo atenção?

— Olha aqui seu…! — Yolanda teve que ser contida por Fernando antes que ela avançasse em Aurélio.

— Se recomponha, mulher! Se me agredir, mando os dois para a prisão! E isso vai ser ruim para o garoto!

— O senhor não fará nada, delegado? — Perguntou Fernando, tentando conter sua raiva. Aurélio simplesmente respondeu dando de ombros. Assim que o casal deixou o local, o delegado pegou o telefone e ligou para Luciano.

— Alô… Senhor Cambota? Aqui é Aurélio, delegado. Apenas para te avisar que estiveram aqui dois professores que disseram que você maltratou o filho deles… É… Hm, hm… Isso é um absurdo mesmo. Ah! O nome deles e do filho? Os pais se chamam Fernando e Yolanda… O filho se chama… como é mesmo?… Ah! Otto, alguma coisa assim…. Hm? Ah, o senhor quer saber onde eles moram? — Aurélio ficou um pouco reticente com o pedido de Luciano — Olha… eu não sei se seria ético…

— Ético seria se eu expusesse todos os podres da sua delegacia, senhor Aurélio. Se quiser manter tudo em ordem, apenas me diga onde eles moram. Ah! Se possível, me diga onde esses… professores trabalham também.

— Tudo bem, senhor Cambota… tudo bem! O senhor não é fácil mesmo! Eles moram na Rua dos Laranjais, 45. A escola que os dois trabalham é… deixa eu ver… Fica na Rua de São Albuquerque das Flores, número 2. Hm, hm. Essa ligação nunca aconteceu, tudo bem, senhor Cambota? Sim? Ok! — Depois que Aurélio desligou o telefone, Luciano sorriu malignamente.

Três dias após aquela ligação, Luciano fez questão de comprar a escola onde Fernando e Yolanda trabalhavam. Sendo o novo dono, exigiu que os dois fossem demitidos, e como muitos na cidade deviam favores ao banqueiro, os pais de Otto tiveram dificuldades para arrumar um novo emprego. Não satisfeito, Luciano fez negócio com o senhorio do casal, e comprou a casa onde moravam. Por meio de um advogado, o senhor Cambota ordenou que a família de Otto fosse despejada. Desolados, e sem ter para onde ir, Fernando e Yolanda temeram por Otto. Poderia acontecer de alguém do serviço social vir e tomar a criança, já que estavam quase em completa vulnerabilidade. E foi naquela situação de miséria que Etterbelle reencontrou Otto. Logicamente ela se entristeceu ao ver o estado de sua família. Enquanto Fernando e Yolanda dormiam num barraco improvisado, Etterbelle se aproximou de um choroso Otto.

— Foi Luciano Cambota! Foi aquele banqueiro de meia tigela! — Otto falava isso enquanto abraçava a sua amiga luminosa — Esse monstro está atrás de você, Etterbelle! Acho que é melhor a gente parar de se encontrar, senão ele vai te achar.

— Como pode um homem ser tão mau assim?… Meu Deus do céu!

— Se você, sendo bem mais velha, não sabe responder isso, imagine eu…

Enquanto conversavam, Luciano estava de tocaia com uns pilantras contratados. O banqueiro, após realizar suas maldades contra a família de Otto, sabia que, mais cedo ou mais tarde, Etterbelle apareceria. Então viu os dois abraçados e teve a impressão de ver uma mãe consolando um filho. Aquilo o encheu de ódio.

Em certo momento, Etterbelle sentiu o ambiente ficar estranho e percebeu um ou outro vulto correr para lá e para cá. Otto ficou assustado e, num movimento rápido, Luciano brotou das trevas e prendeu a pulseira no delicado pulso da criatura. Etterbelle, ao ver o que aconteceu, se afastou e tentou desaparecer, mas não conseguiu.

— Fuja daqui, Etterbelle! — gritou Otto, acordando seus pais no barraco.

— Eu não consigo fugir! Eu não consigo… voar… Ai! O que está havendo?!

Enquanto Luciano se aproximava vagarosamente da Felicidade Inesperada, os pilantras derrubaram Otto no chão e atearam fogo no barraco de seus pais.

— Não!!! Os pais de Otto, não!!! — o grito de Etterbelle foi cortante e encheu de angústia alguns malfeitores, que fugiram assustados. Porém, outros riram da situação. Então Luciano Cambota disse:

— Eles não vão morrer. Eu poderia fazer isso, mas não quero.

— Seu monstro! Ai… eu estou me sentindo fraca…

— Você agora é minha! Você agora é minha Fada da Alegria! Vamos, levante-se e me siga! — Etterbelle, não se sentindo mais senhora de si, e sem entender, obedeceu. Otto não sabia se ajudava os pais ou se ajudava sua amiga, até que Luciano lhe disse: — A polícia está vindo prender teus pais, moleque. Ninguém mandou esses dois atearem fogo na rua. Ei! Vocês dois aí! Joguem esse casal ali, naquela pilha de lixo, e deem um tapa nesse moleque!

Os dois brutamontes atenderam a ordem de Luciano, e agarraram Fernando e Yolanda como se fossem bonecos de pano. Como se debatiam muito, os capangas socaram a barriga dos dois e os largaram em cima do lixo. No entanto, quando procuraram por Otto, este tinha desaparecido. Os dois malfeitores, junto com uns outros que ainda estavam por ali, não demoraram para debandar. Otto estava escondido e esperava por um momento para ajudar seus pais, porém, antes que pudesse agir, o delegado Aurélio apareceu com dez policiais.

— É muito triste ver que vocês se revoltaram desse jeito! — Aurélio falou isso com disfarçado desdém; estava constrangido — Onde está o filho de vocês?

— Nós não fizemos nada! Nada! Vieram uns vagabundos e quase nos mataram! — esbravejou Fernando, olhando ao redor, procurando por Otto.

— Mas… foram vocês que atearam fogo aqui… e causaram essa confusão. — Aurélio tentava conter seu constrangimento.

— O que você está dizendo?! Cadê meu filho?!

— Não sei. Talvez vocês pudessem dizer… O serviço social deve vir logo.

— Seu… — Yolanda se levantou e socou fortemente o rosto de Aurélio.

— Prendam esses dois salafrários! Tirem eles daqui! — o delegado ficou vermelho de raiva e segurava o seu queixo, que doía fortemente. — Procurem o garoto! Ele deve estar por perto!

Otto, sem saber o que fazer, correu pelos becos e ruas, afastando-se daquele local. Subiu ao terraço de um pequeno prédio e se empoleirou num canto. Chorando silenciosamente, viu uma pequena coluna de fumaça preta subir ao longe. Quis ajudar seus pais e Etterbelle, mas sentiu-se impotente, e o vento frio pareceu torturá-lo ainda mais.

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