VI
Etterbelle estava amuada e com o brilho fraco. Encostada num canto da jaula que Luciano mandou construir, olhava para a maldita pulseira de prata. Já Luciano era só felicidade; mas sua felicidade era vil. Olhava para a Felicidade Inesperada com cobiça e desejo, e a sombra de sua maldade enchia Etterbelle de nojo.
— Agora eu terei tudo o que mereço! Tudo o que sempre mereci!
— E o que você acha que merece, senhor? — a voz de Etterbelle era monótona e pesada.
— Eu mereço ser feliz! Mereço ter o que sempre quis! Minha Leila! Minha amada Leila!
— Senhor… eu não posso fazer isso…
— Por que não?! Você não é a Fada da Alegria?! A fada realizadora de desejos?! Vamos! Faça Leila Amélia largar o traste do marido dela, e faça com que se apaixone por mim! Faça isso!
— Eu não posso forçar a vontade de ninguém… Não me peça isso!
— Mentirosa! Você dá uma família para um moleque de rua, mas não pode me dar a mulher da minha vida?!
— Eu não dei família alguma a ele. Otto foi adotado por boa gente… Gente que você fez questão de maltratar.
— Você está começando a me parecer inútil. Mas… é bonita e ficará aí, nesse teu canto. Quem sabe você se arrependa de tua tolice e venha a atender ao meu desejo? — Luciano então saiu do quarto, fechando a porta com força, e Etterbelle ficou numa escuridão profunda.
Aquele foi um período ruim, e os dias eram longos e demorados. A cada semana Etterbelle definhava mais e mais, e seu brilho era cada vez mais moribundo. Foi assim por dois anos, até que o senhor Cambota finalmente se enjoou dela.
— Pois é, querida fada — Luciano se jogou pesadamente na poltrona que ficava à frente da jaula — Acho que você é uma farsa. Bem, tenho um conhecido que diz que não… e ele tem interesse em você.
— Você fala do homem que te deu esta pulseira? — a voz de Etterbelle saiu aspirada e seca.
— Amigo seu? Bem… Acho que ele fará melhor uso de você.
— O que eu não entendo, senhor Cambota, é como você não consegue se sentir satisfeito com nada. Você… você tem tudo; literalmente tudo! Casa, comida e uma cama confortável para dormir. Quando eu era livre e voava por aí, eu via o senhor rejeitar tantas pretendentes… Mas você ainda é fissurado na Leila Amélia. Ela seguiu com a sua vida e você ficou parado no tempo. Você não vive de verdade e chora por aquilo que não aconteceu; se entristece por aquilo que não tem e nem terá. E, mesmo que tivesse, você se sentiria vazio e sem propósito. — Etterbelle olhou firme para Luciano — Meu Deus… o teu vazio é horrendo! Então uma coisa eu te dou: veja-se!
A fisionomia de Etterbelle se alterou profundamente e uma sensação de terror tomou a sala, fazendo com que Luciano se apavorasse. Perturbado e sentindo péssimo agouro, o banqueiro fugiu do quarto e se trancou no banheiro. Ao se olhar no espelho, passou a mão no rosto e, pela primera vez, reparou em seu próprio reflexo. Vendo o seu vazio e suas atrocidades, percebendo quem realmente era, sentiu vergonha, nojo e remorso.

