VII
Etterbelle, quase apagada, ainda não havia perdido a esperança. Era de sua natureza acreditar que seria livre novamente, quer morrendo, quer vivendo. Foi então que, inusitadamente, Otto entrou pela janela. A Felicidade Inesperada, não crendo em seus próprios olhos, demorou para entender que aquilo não era uma alucinação.
— Otto?! É você mesmo?! Você está maior! — Etterbelle brilhou fracamente.
— Meu Deus! Etterbelle! O que fizeram com você?! O que aquele crápula fez?! Você está mal…
— Não se preocupe comigo… Te ver já me deixa feliz.
— Vou soltar você daí!
— Não faça muito barulho… O senhor Cambota pode retornar a qualquer momento… Me diga, como tem vivido? Teus pais estão bem?
— Sim, estão. Dei um jeito de denunciar o Aurélio… e dei uma baita dor de cabeça na delegacia. Aí eles se viram obrigados a libertar meus pais… Poxa! Fechadura difícil essa!… Mas com Aurélio preso por má conduta, o juiz entendeu que meus pais são inocentes. Até que estamos vivendo bem… não é a mesma coisa de antes, mas estamos bem; consegui!
— Vocês ainda estão na cidade? — Etterbelle ofereceu o braço com a pulseira para Otto — E por que você não está com teus pais, menino?
— Ainda estamos na cidade. E… eu não podia te deixar para trás. Meus pais sabem que você é minha amiga e que me preocupo com você.
— Mas o senhor Cambota pode ser vingativo. Ele é muito perigoso.
— Depois da bagunça que fiz na delegacia, posso dizer que atraí a atenção de alguns juízes para nossa cidade. Acho que o senhor Cambota vai ter alguns probleminhas se ele não se ajeitar. Que pulseira esquisita! — Otto tentava entender o que estava escrito — É isso que está te prendendo? Como se abre isso?
— Sim. É um tipo de magia que não conheço… E não entendo o que está escrito.
— “A sua vontade é oprimida, e a materialidade é exigida”. — Respondeu Luciano sombriamente enquanto entrava no quarto. Otto se colocou a frente de Etterbelle e sacou uma faca. O banqueiro sorriu tristemente — Quem me disse isso foi o Comerciante… Homem esquisito… Garoto, pode guardar a faca. Ninguém aqui vai lutar ou se machucar. Se bem que eu poderia te machucar… Invadir propriedade alheia é crime. Mas… mas você tem suas razões… — Etterbelle e Otto olharam assustados para o banqueiro, que se jogou na poltrona — Garoto, essa pulseira não é difícil de abrir; não para nós. Apenas faça força para abri-la.
Otto fez conforme Luciano disse, e logo Etterbelle se viu livre. Ela brilhou como uma estrela, e a sua luz inundou todo o quarto. Luciano, de cabeça baixa, começou a chorar silenciosamente. A Felicidade Inesperada, aproximando-se, tocou-lhe um dos ombros:
— É hora de deixar a tua feiura para trás, Luciano. Agora que você se vê, é hora de se arrepender de tua maldade.
— Mas e… e se eu não conseguir mudar? — a voz chorosa do banqueiro cortou o coração de Otto.
— Mudanças são lentas… geralmente lentas. Às vezes são difíceis… Mas isso sempre vai depender de você. — Etterbelle sorriu docemente para Luciano, deixando-o atônito.
— Por que sorri para mim? Eu te fiz mal!
— Não vou guardar nada contra você. Eu te perdoo. Não há porquê guardarmos mágoas que só nos levam à destruição mútua. O mundo já está ruim demais para mais mágoas e rancores. Para mim, nosso assunto está encerrado. Otto, vamos? Vou te dar uma carona até a casa dos teus pais! Vai ser a primeira vez que você vai voar comigo!
De repente, num piscar de olhos, Etterbelle e Otto desapareceram. Luciano ficou sem palavras e guardou, no fundo de seu coração, aquelas poucas palavras que a Felicidade Inesperada lhe deu. Ao que parece, a semente da bondade começava a espalhar suas raízes no interior do banqueiro, e, timidamente uma disposição para viver de verdade começou a crescer.
Otto, por sua vez, frustrou-se quando a carona terminou. No entanto, estava muito alegre por ver sua amiga livre novamente.
— Está entregue, pequeno Otto! Você é um rapaz muito doce!
— Eu amo ver você assim! Livre e brilhante! — Otto deu um forte abraço em Etterbelle — Será que o senhor Cambota vai mudar? É muito difícil fazer o que você fez… Acho que ainda estou chateado com ele.
— Isso é natural, Otto. Mas… com o tempo você irá perdoá-lo de uma vez. — Etterbelle olhou para o céu estrelado — Esse mundo ainda é perigoso para mim… Pode ser que Luciano mude, mas há aqueles que nunca irão querer mudar. E tem gente realmente perigosa… Otto, preciso ir embora…
— Eu imagino que sim… Já esperava por isso… Bem… É melhor você ir…
Ambos se abraçaram novamente e Etterbelle começou a voar, deixando um Otto emocionado na porta de sua casa. De repente ela desapareceu, deixando uma nuvem dourada no ar. Otto então, timidamente, bateu na porta. Fernando e Yolanda abriram e abraçaram o seu filho. Reunidos, foram jantar e houve felicidade naquela casa por muitos e muitos anos.

