Introspecção e Cotidiano

Era só mais um dia; um dia igual a todos os outros. O amanhecer chuvoso e frio, com as sonolentas buzinas na rua movimentada não costumava causar incômodo a Marcela Padrão Oliveira. Mas, naquele dia, algo parecia estar fora do lugar.

Marcela estava com sono e observava a fumaça do café em sua xícara com detida curiosidade. A fumaça subia, sinuosa e perfumada, e a jovem questionava sua realidade. Ligou a TV, e passava um enlatado matinal, onde uma certa Daniela Jorge vendia o seu mais novo livro sobre o anônimo herói do mundo. Apesar de aquilo ser mais uma balela, foi o estopim para Marcela entender o seu incômodo.

Tomou um ônibus para sua faculdade, e ignorou a saudação do motorista. Sentou-se na janela, e observou as pessoas indiferentes ao que aconteceu há alguns meses. Ninguém mais falava da tal invasão alienígena, e todos ignoravam o tal do herói anônimo da Daniela Jorge. Para falar a verdade, ninguém entendeu o que aconteceu naquele dia. Mas aquilo não era coisa para se ignorar, porém os acontecimentos do cotidiano sufocaram o espetacular ocorrido. A vida segue e não pode parar; que bom que os ETs levaram o anônimo embora. Agora todos poderiam continuar com suas vidas ordinárias.

No campus Marcela continuou com suas observações. Uns rindo, outros estudando, e alguns preocupados com provas e trabalhos acadêmicos. Todos tinham o cansaço estampado em seus rostos. Talvez não quisessem se lembrar daquele momento traumatizante. Muitos diziam que foi histeria coletiva, mas as infinitas imagens e vídeos sobre a invasão demonstravam o contrário. Todos os jornais, dos mais sérios aos mais sensacionalistas, tinham edições totalmente dedicadas àquele dia. No entanto, ninguém mais tocava no assunto. Nem mesmo os conspiracionistas.

Marcela pensava nisso tudo até que bateu o horário de suas aulas. Aos poucos ela foi esquecendo o objeto de suas reflexões. Logo estava preocupada com o próximo trabalho da faculdade, irritada com uma tal de Manoela Silva Bulhões, que gostava de se mostrar mais inteligente do que todo mundo, e aflita com a hora de seu trabalho na lanchonete.

Saiu, costumeiramente, em cima da hora. Tomou o ônibus com o mesmo motorista de antes.

— Olha! A mal educada que não sabe responder bom dia!

— Ah! Oi! Perdão! Mas não entendi…

— Tudo bem! Tudo bem! Todo mundo anda de cabeça cheia hoje em dia! Eu que peço perdão pela minha intromissão.

Marcela foi para seu assento, sem entender o que o motorista quis dizer. Olhou para a janela e tentou se lembrar do porquê da sua introspecção da manhã, mas não conseguiu. Antes que alcançasse o fio da meada, seu ponto chegou. Desceu correndo e foi logo se trocar no vestiário da lanchonete.

Teve um período de trabalho pesado e cansativo. Voltou para casa e pensava apenas em começar um trabalho da faculdade e em dormir. Quando finalmente se deitou, teve uma vaga lembrança do que a incomodava, mas isso logo se desfez em um profundo sono reparador.

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