O Vigia da Biblioteca

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Os gatos devem ser sempre a mesma coisa, inclusive aqueles de natureza celestial. O Senhor Gato—Merz, o Bibliotecário, nunca lhe dera um nome melhor—descansava preguiçosamente sobre uma pilha de livros velhos e empoeirados, e olhava com patente desinteresse para Merz e seus assistentes. Recebia, vez ou outra, um carinho aqui e outro acolá, e bocejava, desejando um pouco mais de sono reparador. De repente, sem mais nem menos, saltava e ia perambular por entre as estantes infinitas da Biblioteca.

O Senhor Gato já estava lá quando os primeiros humanos descobriram a chamada Biblioteca dos Mundos. Ninguém sabe ao certo quem ergueu aquele lugar, ou quem juntou tanto conhecimento de origem incerta. O que todos diziam era que o gato, provavelmente, pertencia aos fundadores da Biblioteca.

Pelo fato de aquele lugar ser bastante peculiar—uma confluência no meio da Estrada dos Mundos, uma verdadeira encruzilhada cósmica—, ninguém estranhou o tempo de vida do Senhor Gato. Séculos se passaram e o bichano continuava o mesmo, com seu pelo cinza brilhante. Toda vez que passava pelos humanos, estes sentiam uma espécie de temor e respeito, como se aquele ser fosse algo superior. Por causa disso, muitos tinham medo de estudá-lo. No entanto, Merz, quando assumiu o cargo de Bibliotecário Chefe, se afeiçoou ao bicho.

Era claro que o Senhor Gato gostava de Merz e os dois se entenderam bem. De algum modo o Bibliotecário aprendeu a entender o gato, porém, era mais provável que o Senhor Gato tenha se feito entender. Logo se tornou comum ver Merz conversando e filosofando para o bichano, que o ouvia como aquela mãe que ouve o balbuciar de um bebê. Mas também era comum ver Merz calado por horas, balançando a cabeça em tom de concordância, na frente do Gato. Quando isso acontecia, alguns dos assistentes diziam ouvir um leve ronronar ecoar no ambiente.

A amizade de Merz com o Senhor Gato gerou bons frutos para aqueles que estudavam a Biblioteca dos Mundos. Livros escritos em línguas desconhecidas passaram a ser traduzidos, e outros conhecimentos sobre a Estrada dos Mundos e sobre a Existência foram revelados para aqueles humanos, que apenas começavam a sua jornada. Entretanto, o Senhor Gato não sabia quem construiu aquela Biblioteca; ele simplesmente encontrou um lugar interessante e decidiu ficar por lá.

O Gato era um explorador por natureza. Fazendo o que sempre fez, saiu de seu lugar de descanso e se pôs a percorrer as estantes. Era comum esse tipo de atitude, mas havia algo mais. Seus olhos verdes perscrutavam cada canto daquele lugar, como se procurasse por algo. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa rastejaria para dentro da Biblioteca.

Ninguém sabia o real tamanho da Biblioteca dos Mundos, nem mesmo o Senhor Gato, que viveu por Eras naquele lugar. Porém, o bichano desconfiava da existência de outras entradas, e isso o preocupava. Desde a Rebelião não se tinha notícias dos Condenados, mas o Senhor Gato intuía que alguns dos Caídos encontrariam uma forma de escapar do Vazio.

Naquele dia, em sua ronda, o Senhor Gato foi para bem longe. Alguma coisa estava diferente no ambiente e os corredores começaram a ficar um pouco mais escuros. O bichano chegou a dar um miado, perguntando se havia alguém ali, mas não escutou nada; apenas sentiu o ar pesado. Caminhou com leveza e cuidado e teve a impressão de sentir um odor acre. Esgueirando-se por entre as estantes e deslizando como água, encontrou um novo átrio, mas todo arruinado. A entrada para os outros corredores estava escura, e os livros, corroídos.

O Senhor Gato se moveu como uma sombra e farejou o ar, que parecia podre. Afinou os seus ouvidos para escutar até pensamentos, e então ouviu: — Fome. Fome. Fome. — E o que se seguiu foi o som de criaturas rastejando e mastigando. O bichano sentiu asco e quis vomitar, porém, foi percebido por sabe-se lá o que. Uma sombra densa e suja, com cinco olhos brancos e esbugalhados, apareceu e empurrou o gato para longe, gritando de forma desesperada. O Senhor Gato, se recuperando do susto, correu atrás da entidade, mas a perdeu de vista no meio do breu.

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