O Vigia da Biblioteca

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Após aquele encontro, o Senhor Gato ficou mais vigilante. Evitava, a todo custo, conversar com Merz e se deitava sempre de frente para o corredor que levava para o átrio abandonado. Ninguém entendia aquela atitude que o felino passou a tomar, mas, também, ninguém se importava muito. Apenas Merz percebeu que algo estava fora do lugar.

Então, certa vez, enquanto o Gato se lambia, ouviu-se um grito de nojo vindo de um dos corredores. Todos foram para lá e se horrizaram com o que viram: centenas de insetos e vermes se alimentando dos livros e dos rolos das estantes. Ninguém soube o que fazer naquela situação, pois, além de ter sido repentina, aquilo nunca acontecera. Merz ficou chocado ao ver a cena e ordenou que se isolasse a área para evitar que aquelas coisas se espalhassem pelo resto do acervo. No entanto, assim que terminou de dar a ordem, sentiu seu corpo dormente e sua cabeça ficou confusa; isso também aconteceu com os outros assistentes. Então, sem mais e nem menos, aqueles homens e mulheres começaram a se alimentar daquelas criaturas asquerosas. Merz só não participou do nojento banquete porque o bichano o puxou para fora dali.

Merz estava completamente fora de si, se debatendo e tentando se livrar do Senhor Gato a todo custo. Vendo que o Bibliotecário não se recuperaria, o bichano o pôs para dormir e saiu para caçar.

As criaturas asquerosas estavam se espalhando rapidamente pela Biblioteca. Os assistentes de Merz haviam se transformado em torres grotescas de mofo e de coisa apodrecida, e o cheiro de coisa morta empestava o lugar. O som dos insetos e vermes rastejando e mastigando incomodava profundamente o Senhor Gato, que já estava com seus pelos eriçados de raiva.

O Senhor Gato tinha consciência de que a entidade ainda se escondia no átrio abandonado, e que aquelas criaturas asquerosas eram apenas uma espécie de apêndice digestivo—um tipo de boca que a coisa projetava para se alimentar à distância.

À medida que se aproximava do lugar esquecido, mais o fedor e a opressão aumentavam. Aquela fala repetitiva, que dizia “Fome. Fome. Fome.” estava mais alta, como se existisse uma espécie de satisfação maligna. O Senhor Gato, enfurecido, ignorou todo o nojo que sentia e caçou o ser naquela penumbra cheia de trevas.

O Gato não foi percebido em nenhum momento, pois a entidade estava em êxtase, com suas longas bocas tubulares esticadas, que se transformavam em insetos e vermes. O bichano saltou em cima daquela sombra nefasta e, usando suas garras de aço, a cortou no meio. O urro do monstro foi terrível e o chão rachou; os olhos brancos daquela coisa fitaram, com patente horror, o Gato, que já desferia outro ataque.

Completamente mutilada, a entidade tentou se arrastar para algum lugar escuro, mas o Senhor Gato continuava a fatiá-la sem dó. Completamente destroçado, o monstro murmurou por clemência, mas o felino sabia que a qualquer momento aquela coisa se recomporia, pois era de natureza imortal. O Gato não parou de acuar a criatura, que se viu obrigada a sair por onde entrou. Porém, do lado de fora da Biblioteca dos Mundos, o bichano continuou machucando e afastando a coisa, até chegar próximo a uma passagem de aspecto sombrio e medonho. Estavam diante do Vazio.

Pode ser que, apenas por um pequeno momento, o Gato teve pena daquele monstro. Aquela entidade já foi bela um dia, mas sua corrupção e loucura, além da maldição sofrida, a deturparam. Sua natureza animalesca e cheia de vícios apagou todo traço de bondade e lucidez que um dia tivera, e agora era uma força maldita, cheia de vontade de destruição. O Senhor Gato se lembrou dos Dias Antigos e das escolhas feitas, então, sem pestanejar, sibilou e gritou, ordenando que a criatura se lançasse ao Vazio novamente.

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