II
A vida é feita de imprevistos e de surpresas. Ninguém pode dizer, com toda certeza, o que vai acontecer daqui a pouco ou daqui a dois ou três anos. Tudo acontece de repente, e ninguém esperava que o avião do senhor Palhares fosse cair no meio do Atlântico. Foi um acidente horrível e muito trágico, onde todos os cento e oitenta passageiros encontraram o seu destino. Exceto Palhares.
O professor Palhares não acreditava no pós-vida, no entanto, sua morte o obrigou a mudar de perspectiva. O lugar era completamente escuro e seu corpo brilhava fantasmagoricamente. Olhou para todos os lados tentando se situar, até perceber uma fila próxima: eram os passageiros do voo que caiu. Ao se aproximar, reconheceu Bernardo Brucedickson dos Santos Vieira.
— Ah! Você também estava no meu voo?! — Bernardo sentiu a surpresa de Palhares no próprio ectoplasma.
— Sim. Estava. Cheguei a te cumprimentar, mas, pra variar, me ignorou. — A voz de Bernardo era monótona e metálica.
— Ah… Bem… Então é assim que é o pós-vida? Bem diferente do que o povo pensa, hein! — De repente, surgiu uma voz forte, que dizia:
— Ok! Ok! Fiquem todos calmos que isso logo, logo acaba, tudo bem?! Apenas para informar que vocês todos morreram, como bem puderam perceber, na queda do avião. Antes que perguntem: não, não tem como a gente saber se vão encontrar seus corpos, ou os destroços do avião. E não, não tem como vocês voltarem pra falar com ninguém. O que passou, passou. Tudo bem?! Agora, vou chamar nome por nome, e venham se apresentar na minha mesa. — O homem de túnica branca se sentou atrás da mesa e colocou uns óculos. Abriu o que parecia ser um laptop e começou a chamar os nomes das vítimas do acidente.
A cada nome chamado havia uma sentença. Uns subiam enquanto outros desciam. O homem, que parecia ser um anjo, dizia para quem descia: “Desculpe, mas não fui eu que vivi essa vida. Você deveria saber o que estava fazendo. E o pior, é que nem dá para reclamar com o SAC agora”. E foi assim, até sobrar o Palhares.
O anjo olhou o professor solitário no meio do nada e conferiu e reconferiu suas listas no laptop.
— Senhor, como é o teu nome mesmo?
— Fernando José Palhares, filho de dona Jaciara Ferreira Palhares e Eduardo Manoel Palhares.
— Hum… Estranho… Teu nome não está em nenhuma lista. Por que você está aqui então? — O anjo repassava os olhos nas listas pela vigésima vez.
— Bem… eu estava no voo em que todos morreram e…
— Sim, eu sei… a pergunta foi retórica.
Palhares fez menção de falar alguma coisa, mas logo percebeu que não havia nada para ser dito. O anjo realmente estava concentrado. Então, travando os olhos no professor, começou a inquiri-lo:
— Qual era o motivo da viagem do senhor?
— Estava indo para uma conferência em Madrid.
— Hm… Ok… Para qual conferência? A de otakus, a de Jornada nas Estrelas, ou a de História Social? Ah, tem também a de produtores de uva. Para qual delas você estava indo?
— Isso é mesmo necessário? Não está aí no seu computador?
— Por favor, responda a pergunta, senhor. As coisas não funcionam da maneira que você quer.
— A de História Social…
— Hm… Apenas para confirmar uma coisa aqui para mim, mas onde você trabalhava?
— Sou professor universitário na Universidade Gonçalves Gouveia.
— Ah! Pode ser que seja isso então! — o anjo se aproximou bem da tela e disse: — Estranho… Você não tem pedido de afastamento para viajar. Isso confere?
— E precisava pedir? Achei que não fosse obrigatório esse tipo de coisa. — Assim que ouviu isso o anjo juntou as mãos e deu um longo suspiro:
— Você, então, não solicitou afastamento por motivo de viagem? Para a Universidade você não está viajando. Meu Deus! Tenha misericórdia!
— Mas era realmente obrigatório pedir isso? Que coisa chata, hein! Tanta burocracia pra nada.
— É… mas é essa burocracia que te daria segurança pras coisa! Vê se pode! Agora vai dar um trabalho…
— Que trabalho?
— Mais burocracia, senhor Palhares… mais burocracia! Sem a solicitação de afastamento por motivo de viagem, a Universidade, e o seu mundo, entendem que você ainda está lá, trabalhando. Pela falta desse documento, meu caro, nós entendemos que você ainda está vivo. Juridicamente você está vivo, e não morto. Você entende o problemão que você me trouxe. Não dá nem pra você subir, muito menos para descer.
— Ah, então eu posso voltar a viver. — Palhares sentiu uma ponta de esperança.
— Não, porque você morreu. — Palhares murchou na hora — Entenda, senhor Palhares: você morreu, não tem mais como voltar. Acabou. O problema, é que não temos como te enviar para lugar nenhum, tudo porque você não solicitou o afastamento de sua Universidade. Você está preso no limbo e agora terei que ver o que posso fazer.
— Isso já aconteceu outras vezes?
— Comigo, nunca. Já ouvi uns casos de outros colegas. Vou consultá-los. Espere um pouco, sim?
O anjo saiu e ficou fora por um tempo; e tempo parecia ser uma coisa que Palhares tinha de sobra. Então, naquele ínterim, ficou remoendo o fato de não ter pedido o tal do afastamento, até que o anjo retornou.
— Olha, senhor Palhares… Você vai ter que preencher uns formulários aqui… ok?
— Mais burocracia? Até aqui?!
— No formulário azul você deve justificar o por quê de não ter solicitado o afastamento da Universidade. No rosa, você deve colocar teus dados pessoais. No verde, deve relatar, suscintamente, tua vida pessoal. No roxo, tua vida acadêmica. No amarelo… — O anjo prosseguiu explicando e entregando cada formulário para Palhares preencher. O professor torcia para que aquilo tudo fosse apenas um pesadelo, mas o anjo o advertiu: — Palhares, leve a sério esses formulários. Se preencher de qualquer maneira, você pode acabar descendo… ou pior: vai ter que ficar aqui e recomeçar os preenchimentos… E ninguém quer que isso aconteça, não é?
Não se sabe por quantas Eras Palhares preencheu aqueles formulários. Seu pequeno erro burocrático lhe trouxe uma grande dor de cabeça no pós-vida. Porém, a cada formulário pronto, o professor se sentia liberto, até que, por fim, ao entregar o último formulário para o anjo, Palhares sentiu que a coisa iria finalmente andar para frente.
— Ah! Que ótimo! Hm, hm. Hm, hm! Tudo preenchido. Que bom, senhor Palhares. Agora, vou pedir para você aguardar um instante. Meus superiores irão analisar teus formulários e logo, logo te trarei a resposta.
— Espera! Quanto tempo isso vai demorar?
— O tempo que for preciso. E são muitos superiores para analisar esses formulários. Eles terão que dar confirmação em cada um deles.
— Isso é sério?!
— Se você não fosse tão negligente, não estaria dando esse trabalho todo para nós, e você se pouparia, e nos pouparia, desse transtorno todo. — O anjo desapareceu num piscar de olhos, e Palhares teve que aguardar por mais outras tantas Eras, até o anjo reaparecer.
— E aí? Posso subir? Ou… descer?
— Bem…
— Ih… lá vem… O que eu tenho que preencher agora? É o formulário A1, versão dourada? Ou o F5, cor azul?
— Bem… Esperamos que você assine alguns termos de responsabilidade, já que o processo todo… demorou muito tempo e estamos já no Juízo Final.
— Mas o que?!
— Pois é… Assine os termos, por favor. E leve a sério isso, sim.
— E depois?
— Depois a gente vê…
— Mas que termos são esses? — Palhares estava ficando desesperado ao ler os documentos.
— Termos de responsabilidade, caro Palhares. Juízo Final, sabe? Não tem mais Terra e países ou Universidades para recuperarmos documentos. E como você está nesse limbo… jurídico, você deve ler e assinar cada termo para ir se encontrar com o Criador. Ele que vai dar a palavra final. Então leve a sério, tudo bem?
— Ai… meu Deus… que que eu faço?
— Ele vai te responder assim que você assinar esses termos. Mas leia antes.
Palhares assinou os inúmeros termos de responsabilidade e seguiu o anjo. O que aconteceu depois é um imenso mistério, mas, certamente, o professor Palhares nunca mais teve problemas com burocracia.

