Barba Grande

II

Iago tinha dez anos e era um rapaz esperto. Como toda criança de seu povoado, odiava Barba Grande e não entendia o porquê de todos os adultos o amarem. Havia uma estátua grotesca daquele gordo, bem no meio da praça principal da cidade. Além disso, alguns homens e mulheres faziam questão de usarem roupas sacerdotais, como se fossem seus arautos. Chacoalhavam sinos e entoavam cânticos para aquele deus de aspecto esquisito, e condenavam quem não concordava com aquele culto. Iago olhava para tudo isso, e não gostava. Para piorar sua situação, não tinha certeza se seus pais concordavam, ou não, com aquela bizarrice.

Toda vez que ia até a sua mãe, ou ao seu pai, para perguntar sobre Barba Grande, travava. Um medo incomum lhe invadia o coração e nenhuma palavra saía de sua boca. Comentava isso com seus amigos, e todos diziam sentir a mesma coisa. As crianças suspiravam com desejo de chegarem logo a adolescência. Outras ansiavam por fugir daquele lugar maldito. E Iago pertencia a esse último grupo.


O dia da festa havia chegado, e a cidade ficou cheia de turistas. Os foliões lotavam cada rua e beco, e as músicas se misturavam, fazendo um som desagradável ecoar por todo lado. Corria um boato entre as crianças que se elas estivessem dormindo no momento da festa, Barba Grande não as tomaria. Porém, com aquela barulheira era bem difícil alguém dormir. O que restava para elas, então, era se cobrir bem e torcer para que nada de mal acontecesse.

Iago estava bem escondido debaixo de sua coberta, mas uma vontade irresistível de ir ao banheiro lhe dominou. Apertado e com medo, andou até ao banheiro de sua casa e lá se aliviou. Ao sair, olhou para os dois lados e percebeu que tinha uma luz fraca na sala. Curioso, foi até lá e viu que seu pai adormeceu na frente da tv. Iago pensou que seu pai realmente tinha um sono muito pesado, pois o barulho lá de fora era terrível. Desligou a televisão e tomou o caminho de volta para seu quarto, no entanto, o corredor ficou completamente escuro.

O olhar da criança fixou bem na escuridão, e teve a impressão de ver algo se mover. Iago chamou pelo pai, mas ele não se moveu; dormia como uma pedra. O que estava no corredor se aproximou, e Iago viu os olhos vazios e escuros de Barba Grande. Suas íris pareciam dois buracos negros, e sua barba parecia se movimentar como os tentáculos de um polvo. Não houve tempo para a criança gritar.

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