Barba Grande

IV

A cabeça de Iago doía e sua visão demorou para retornar. Quando conseguiu enxergar alguma coisa, percebeu que estava em uma cela suja e escura. Num dos cantos, o vulto portentoso de Barba Grande aguardava. O rosto medonho era tudo o que a criança conseguia ver. Não havia vestes vermelhas, muito menos um sorriso simpático. Era um olhar de predador e um sorriso de malícia. A criatura então falou, em uma língua estranha, e forçou o entendimento de Iago para que ele o compreendesse.

Sinta-se felizardo, pequeno animal! Por ter sido o primeiro desta noite, será o último em meu prato. — A voz cavernosa e maldita de Barba Grande fez Iago quase desmaiar. O monstro sorriu e desapareceu na parede.

Quando se recuperou, Iago começou a forçar as grades. Percebeu que uma das barras estava enferrujada, e conseguiu quebrá-la com muito esforço. A porta do recinto estava entreaberta, e fez um barulho altíssimo quando foi aberta por completo. Iago sentiu que alguém o olhou naquele instante, e alguma coisa se arrastou no meio das trevas. Não havia luz ali, e Iago se guiou apenas pelo fraco fluxo de ar que soprava de algum lugar.


A festa chegava ao seu ápice aos poucos. Os foliões estavam cada vez mais em êxtase e suas músicas ganhavam tons hipnóticos. Aquilo deixava Manuela apavorada, pois via seus vizinhos se tornarem em outras coisas. Além disso, sua mente também sofria: uma voz constante tentava atraí-la, forçá-la, para a festa e para a bebedeira.

De repente, Manuela viu em uma janela os filhos de uma amiga sua. As crianças estavam visivelmente assustadas, e ela chegou a pensar em levá-las embora também. Mas seu coração se dividiu, e não soube se isso seria certo. Decidiu seguir para a estação de trem, sozinha.


Tomás seguia a toda velocidade pela estrada, sempre olhando para o horizonte, torcendo para não amanhecer logo. Então, pelo canto do olho, percebeu uma construção esquisita e angular numa montanha. Era quase imperceptível, mas sua forma transmitia uma sensação de enjoo e perturbava a vista e a mente. Tomás saiu da estrada e tomou aquele rumo.

Rolar para cima