Barba Grande

V

Iago tinha a sensação de estar descendo. Tropeçou várias vezes em degraus ocultos pela escuridão, e estava apavorado com a possibilidade de esbarrar em Barba Grande. De repente sentiu o ar ficar ligeiramente quente, e a mão forte e gelada de alguma coisa o segurou pelo braço. Seu grito foi impedido por outra mão gelada e um sibilo sinistro o aterrorizou.

Foi carregado, delicadamente, sabe-se lá pelo quê. Percebeu que estava indo na direção do fluxo de ar, que estava ficando cada vez mais gelado e intenso. O levaram até a uma abertura por onde a luz da lua entrava com intensidade. Virou-se para trás e viu vários olhos brilhantes e tristes. Uma daquelas criaturas se aproximou de Iago, e guinchou algo. A criança não conseguiu ver bem a forma daquela coisa, mas entendeu que deveria fugir por aquele caminho.

A criança ainda não tinha chegado na metade da trilha quando ouviu o estrondo de frustração e raiva de Barba Grande. Aquele grito horroroso fez o chão tremer e rachar, e outros berros medonhos, provavelmente das criaturas que ajudaram Iago, foram escutados. Foi naquele momento que Tomás apareceu e abraçou seu filho, que não estava acreditando no que estava vendo.

Tomás havia deixado sua motocicleta no pé da montanha. Ele seguiu, com seu filho no colo, o mais rápido que pode, porém Barba Grande os paralisou.

O monstro os mataria ali mesmo, mas, contrariando suas expectativas, Tomás conseguiu quebrar seu poder, o deixando surpreso.

— Senhor Barba Grande! Deixe meu filho ir embora, com segurança. Me leve no lugar dele!

Eu não posso aceitar tamanho despautério! Um verme desprezível querendo negociar comigo? Teu filho seria o meu último aperitivo, mas agora irei despedaçá-los aqui mesmo!

Tomás então foi tomado por um força que desconhecia, e olhou fundo naqueles olhos vazios.

Que a Espada dos Celestiais te alcance, e que tu sejas despedaçado por ela! Sejas tu lançado no Vazio, que é o teu lugar, criatura maligna! Tua condenação logo chegará, e não sairás impune das tuas maldades! Deixa meu filho ir em paz!

O eco da voz de Tomás foi poderoso, e isso fez Barba Grande recuar. O monstro ponderou ao olhar aqueles dois humanos frágeis e não soube se seria uma boa ideia devorá-los. Então endireitou-se e forçou um riso de falsa confiança.

Façamos assim, verme: vocês podem ir embora, juntos. Mas nunca mais deverão pôr os pés nesta cidade, nem nestas montanhas. Se colocarem os pés aqui novamente, não serei tão… misericordioso como estou sendo agora.

Tomás segurou firme Iago, e os dois fugiram daquele lugar agourento. Foram de motocicleta até a próxima cidade e lá encontraram Manuela, que estava visivelmente aflita. Aquela família fez questão de mudar, não só de país, mas de continente. Se embrenharam em alguma cidade desconhecida e distante, e lá viveram em paz.

Barba Grande, por sua vez, continuou com suas festas hediondas, porém, toda vez que se sentava em seu trono, as palavras de Tomás ecoavam em sua cabeça, quase como um pensamento intrusivo; quase como um aviso. Aquele monstro, de poder insuperável, se comparado com qualquer criatura daquele universo, sentia o horror de sua inevitável condenação. O pavor aumentava a cada festa, e a cada sacrifício. Tomado de terror, sentindo que o fio da Espada lhe cortaria o pescoço a qualquer momento, Barba Grande fugiu para o Vazio, e lá se entregou à sua loucura.

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