2 – Ignorância, cacofonias e percepções: reflexão e crítica em um mundo desinformacional

I

Introdução

A desinformação é coisa antiga, além de ser inerente às sociedades humanas. Poseti e Matthews (2018) demonstraram isso em uma linha do tempo que remonta até ao ano de 44 a.C., onde elas apresentam a desordem informacional através dos séculos. Mas o que difere o hoje do ontem, é a capacidade de propagação e alcance da desinformação, graças ao desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e informação. Porém, apesar de todas as mudanças que nosso mundo passou, passa e passará, o propósito da desinformação parece continuar o mesmo: enganar (Brisola & Bezerra, 2018; Entidade Reguladora para Comunicação Social, 2019; Froehlich, 2020; Wardle & Derakhshan, 2017; Mello, 2022).

A intenção do ardil é o que diferencia a desinformação da simples informação errada ou falsa. Wardle e Derakhshan (2017) dizem que a desinformação é uma criação deliberada de informação falsa, visando causar prejuízo a terceiros, e Brisola (2021) afirma que a desinformação é “um complexo de ações que constroem um cenário intencionalmente determinado”. Ora, se a desinformação engana e manipula, além de ser construída de forma consciente e proposital, podemos nos arriscar a chamá-la de mentira. Santo Agostinho (2019) escreve que “ninguém pode duvidar de que mente aquele que deliberadamente diz uma coisa falsa com intenção de enganar. Portanto, dizer uma coisa falsa com intenção de enganar é uma mentira declarada”.

Mas será que a desinformação tem apenas o propósito do prejuízo a terceiros? Apesar do engano planejado causar, de fato, danos a pessoas e a grupos, o embuste também pode ser utilizado, conscientemente, para preservar, ou promover, a imagem de alguém ou de alguma ideia. Fonseca (2005), ao falar sobre as formas de engodo que outros animais utilizam para sobreviver, afirma que

o repertório ilusionista gravita ao redor de dois estratagemas básicos. Há o engano por ocultamento, que se baseia em ardis de camuflagem, mimetismo e dissimulação; e há o engano por desinformação ativa, baseado em práticas como blefe, o logro e a manipulação.

Enquanto o engano por ocultamento procura induzir o outro a não perceber o que existe, a chamada desinformação ativa leva o sujeito a ver o que não existe (Fonseca, 2005). A partir deste ponto, ousa-se dizer que a falsidade construída pode ter outros objetivos além do prejuízo a terceiros. Então, compreende-se — e se reafirma — o que já foi colocado anteriormente: o objetivo da desinformação, ao que parece, é, unicamente, o engano, quer isso cause problemas ou vantagens a outrem.

Entretanto, nem toda informação falsa, ou errada, é compartilhada com a intenção do engano. Podemos chamar esse tipo de informação de misinformation (Wardle & Derakhshan, 2017), e aqui cabe um adendo para justificar o uso do termo em inglês. Apesar de misinformation significar, grosseiramente falando, “informação errada”, ou, ainda, “informação equivocada”, suas origens podem ir, presume-se, muito além de simples mal-entendidos. Crenças obscuras, preconceitos, falhas de memórias, dentre outros fatores ligados a percepção, além da própria desinformação em si, podem gerar misinformations. Pelo fato do termo inglês, aparentemente, abranger esse compêndio de fatores, prefere-se o uso do termo nessa língua.

Ressalta-se que a desinformação possui intenção do engano; misinformation não possui intenção do engano.

Dito isto, continuemos.

Como colocado um pouco acima, a origem das misinformations pode ser abrangente, difusa e nebulosa. Isso pode acabar ajudando na concepção de novas desinformações, que levará a um ciclo sem fim de enganos e autoenganos. Deve-se ter em mente que a desinformação afeta nossos sistemas de crenças, influenciando nossas percepções sobre a realidade circundante, tornando-nos em disseminadores passivos de mentiras bem construídas, e transformando-nos em vetores de misinformations, principalmente quando a desinformação se harmoniza com nossas crenças, se camuflando em nosso entendimento.

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