II
A Ignorância da ignorância
Barros (2020) nos diz que “o mundo não é exatamente do jeito que queremos”, e Pilati (2021), complementa isso ao afirmar que “a realidade do universo é indiferente ao observador, à nossa humanidade e, em última análise, à nossa existência”. Tudo que percebemos ao nosso redor está permanentemente “obscurecido por trás de um véu sensorial” (Seth, 2019), e nosso entendimento sobre as coisas certamente não será “puro” ou imparcial. Mesmo o método científico, que nos lança alguma luz sobre a compreensão da Natureza, e que levanta hipóteses sobre as relações sociais do ser humano com seu semelhante, está submisso aos vieses cognitivos, às crenças e visões de mundo daqueles que praticam ciência. Se o cientista não tomou as devidas precauções a respeito de suas percepções e entendimentos, compreendendo que pode ser influenciado por aquilo que ele espera e por aquilo que ele quer ver (Plous, 1993), pode interpretar seus achados de forma questionável. Por isso se crê que uma espécie de ceticismo crítico seja essencial às mentes dos sujeitos; um ceticismo que nos leve ao reconhecimento de que nossos vieses e crenças podem, sim, atrapalhar e interferir nas análises e interpretações do mundo. Segundo Pilati (2021): “ser cético sobre seus próprios sistemas de crença é uma tarefa paradoxal, pois aceitar a falibilidade do próprio conhecimento pode trazer instabilidade em suas asserções e significados”. Ser cético e observar o denso desconhecido que se avoluma ao nosso redor pode ser, além de desconfortável, assustador.
Lovecraft [2014], no início de seu conto “O Chamado de Cthulhu”, aparenta descrever esse horror apavorante que provém da possibilidade perturbadora de saber que aquilo que pensamos conhecer pode não condizer com a realidade. O autor escreve:
Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a mares negros de infinitude, e não fomos feitos para ir longe. As ciências, cada uma empenhando-se em seus próprios desígnios, até agora nos prejudicaram pouco; mas um dia a compreensão ampla de todo esse conhecimento dissociado revelará terríveis panoramas da realidade e do pavoroso lugar que nela ocupamos, de modo que ou enlouqueceremos com a revelação ou então fugiremos dessa luz fatal em direção à paz e ao sossego de uma nova idade das trevas.
Certamente a plácida ilha de ignorância é um lugar confortável de se estar, pois ali o indivíduo pode lidar com aquilo que ele pensa conhecer, ignorando as infinitas contradições que rondam seus preconceitos e crenças. Tornar-se consciente da própria ignorância pode ser aterrador para a maioria de nós, pois isso reflete a nossa vulnerabilidade ante a incerteza, ante ao desconhecido. Carl Sagan (2006) diz que “como um terremoto que confunde a nossa confiança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profundamente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer estremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar”. Ora, ainda em Carl Sagan (2006), é dito que “durante grande parte de nossa história tínhamos tanto medo do mundo exterior, com seus perigos imprevisíveis, que aceitávamos de bom grado qualquer coisa que prometesse suavizar ou atenuar o terror por meio de explicações”.
Torna-se compreensível que em um mundo com uma grande cacofonia de informações de todo o tipo, seja ela boa, ruim, falsa ou verdadeira, o sujeito se sinta perdido, ou desconfortável, com a amplitude das mudanças e com a quantidade de informações recebidas. Segundo Hogg (2019) “as pessoas precisam possuir um senso firme de sua identidade e de seu lugar no mundo”. Se o indivíduo não sabe lidar bem com o terror da imprevisibilidade e do desconhecido, ele pode sentir o seu senso de Eu prejudicado. E, sentindo-se indefeso, o sujeito pode se lançar na busca por informações que confirmem suas crenças e visões de mundo, além de procurar por líderes autoritários, que influirão, quer de forma premeditada ou não, elementos neuróticos que prenderão a pessoa amedrontada pelo incógnito em uma ilusão angustiante e destrutiva (Hogg, 2019; Neumann, 2017).
É natural que mudanças tragam medos e receios, pois aquilo que antes era, já não é mais. Mudam-se conceitos, preceitos e pensamentos. No entanto, a permanência no medo e a recusa de entendê-lo para confrontar visões de mundo, assim como preconceitos entranhados no íntimo do sujeito, não aparenta ser saudável. King Jr. (2020) afirma que
o homem permissivo sempre teme a mudança. Sente segurança no status quo e tem um medo quase mórbido do novo. Para ele, a maior dor é a dor de uma nova ideia […]. A pessoa permissiva sempre quer cristalizar o momento e manter a vida sob o jugo restritivo da mesmice.
Permanecer no jugo restritivo da mesmice talvez seja comparável com o ato de fugir para a paz e sossego de uma nova idade das trevas, a qual Lovecraft comenta no início de seu conto. E nessa idade das trevas, pode ser que os amedrontados pelas mudanças decidam ignorar a sua ignorância, e passem a buscar formas de proteger suas crenças perante novas descobertas, perante àquilo que é novo. Guzzo e Lima (2018) escrevem que a psicologia cognitiva sugere “que as pessoas não são, naturalmente, boas avaliadoras de razões, especialmente quando refletem sobre ideias que lhes são caras”. E Pilati (2021) complementa isso ao afirmar que acreditar no que se quer é válido para todos, e que todos são afetados, “direta ou indiretamente, por algum sistema de crenças infalível”.
A falta de autocrítica, aliada ao temor daquilo que é diferente e/ou novo, pode vir a se tornar uma combinação perigosa, principalmente se isso parte de pessoas sinceras e autênticas em suas crenças. King Jr. (2020) ilustra isso ao dizer que “alguns dos mais vigorosos defensores da segregação [nos EUA] são sinceros em suas convicções e zelosos em seus motivos”. O reverendo ainda acrescenta que “nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa”. Ora, “a tolice é um inimigo mais perigoso do bem do que a maldade” (Bonhoeffer, 2003).
Para Bonhoeffer (2003) a tolice não é um defeito intelectual, mas sim um defeito humano. Ele pontua que há pessoas intelectualmente ágeis, mas que são tolas, e outras, as quais chama de intelectualmente lentas, mas que não são tolas. Bonhoeffer (2003) escreve:
Ela [a tolice] é uma forma particular de influência das circunstâncias históricas sobre a pessoa, um sintoma psicológico de determinadas situações externas. Examinando melhor a questão, mostra-se que qualquer demonstração exterior mais forte de poder, seja ele político ou religioso, castiga boa parte das pessoas tornando-as tolas. E até se tem a impressão de que se trata aí de alguma espécie de lei sociológico-psicológica. O poder de uns precisa da tolice dos outros. No entanto, o que acontece não é que determinadas capacidades – como, por exemplo, as intelectuais – de repente se atrofiem ou desapareçam na pessoa, mas que, sob a impressão avassaladora causada pela demonstração de poder, a pessoa é privada de sua autonomia interior e então desiste – mais ou menos inconscientemente – de encontrar uma postura própria diante das condições de vida com que se depara. O fato de que o tolo muitas vezes se mostra obstinado não deve nos levar a concluir que seja independente. Na conversa com ele chega-se a sentir que não é com ele mesmo que se está tratando, mas com chavões e palavras de ordem que tomaram conta dele. Ele está fascinado, obcecado, foi maltratado e abusado em seu próprio ser. Tendo-se tornado, assim, um instrumento sem vontade própria, o tolo também é capaz de qualquer maldade e, ao mesmo tempo, incapaz de reconhecê-la como tal. Aqui reside o perigo de um abuso diabólico, por meio do qual pessoas poderão ser destruídas para sempre.
O sujeito, alienado da consciência de sua própria ignorância, nunca encorajado a questionar suas crenças e preconceitos; nunca estimulado a refletir sobre suas percepções e sobre o fato de que o mundo nunca será conforme ele deseja, torna-se presa fácil para si mesmo — para seus próprios autoenganos — e para desinformações que partem, ou de grupos interessados em explorar o pavor alheio, ou de pessoas que simplesmente desejam manter as coisas como estão.
É nesta complexidade de relações e pensamentos humanos, de crenças e preconceitos ocultos nos véus de nossas mais íntimas ilusões, que as misinformations surgem, não com o intento do engano, mas com o pretenso intuito de informar. Ora, Wardle (2018) afirma que “indivíduos que não sabem que uma informação é falsa, podem compartilhá-la nas mídias sociais na tentativa de serem úteis”. E, como dito na introdução, tais informações falsas podem não vir apenas de desinformações, mas podem ter origens em crendices populares, visões de mundo questionáveis, e assim por diante. Porém, tais coisas podem municiar aqueles que constroem desinformações, principalmente em um mundo governado por algoritmos que insistem em prender os sujeitos em suas próprias bolhas. Daí volta-se a necessidade de um ceticismo crítico e da competência crítica em informação.

