2 – Ignorância, cacofonias e percepções: reflexão e crítica em um mundo desinformacional

III

Ceticismo e Competência Crítica em Informação

É provável que a desinformação, assim como nossa tendência em ter crenças infalíveis, não terá uma solução definitiva. Para a natureza humana não há uma receita de bolo, com medidas exatas e acertadas. No entanto, isso não significa dizer que não existam caminhos a serem seguidos e instigados. A personagem Eleanor Arroway, no romance Contato (Sagan, 2008), diz que “a maneira que se tem para evitar os erros, ou pelo menos reduzir as possibilidades de se cometerem erros, consiste em ser cético”. Indo na mesma direção, Pilati (2021) afirma que o ceticismo “é um exercício possível e importante, pois é o meio de criar novas formas, mais eficientes, de compreender a si mesmo e o mundo a sua volta”. E Merton (2013) dá a entender que o ceticismo organizado gera uma suspensão do julgamento, levando a uma espécie de “escrutínio imparcial de crenças”, que, geralmente, segundo o autor, deságua em conflitos com instituições políticas, religiosas e econômicas.

Porém, por mais que se entenda que o ceticismo seja, talvez, um caminho desejável para evitar erros e autoenganos, permitindo chegar ao ambicionável patamar da redução de preconceitos (Pilati, 2021), deve-se ter em mente que o ceticismo está submisso aos nossos vieses cognitivos, podendo sofrer constantes interferências de nossas crenças mais estimadas. Dito isto, observando a clara dificuldade de pôr crenças à prova, podemos ser levados a refletir sobre a honestidade, a prudência e a humildade intelectuais, fatores os quais são capazes de trazer um amadurecimento de senso crítico para o indivíduo.

Analisando mais de perto esses três fatores, podemos nos aventurar em discorrer brevemente sobre alguns de seus detalhes, começando pela honestidade intelectual. Ser honesto intelectual, presume-se, é reconhecer a possibilidade de pensamento enviesado. É a consciência do próprio sujeito admitindo que suas reflexões podem sofrer influência de sua cultura, preconceitos e crenças (Gasque, 2012). O indivíduo, ciente de seus vieses, pode passar a ser cuidadoso com suas reflexões, tornando-se intelectualmente prudente.

Sobre a prudência, Baltasar Gracián (2003) afirma que grandes inteligências “só chegam a uma decisão depois de muito pensar, porque é mais fácil evitar o perigo do que se sair bem dele”. Já Capurro (2010) escreve que a prudência é “o horizonte de alguém que é consciente de seus limites. Ela delimita o anti-critério ‘tudo é permitido’ nos fazendo conscientes de situações ambíguas e evita que busquemos soluções simplistas”. Pode ser que a prudência intelectual nada mais seja do que o cuidado que a pessoa tem com aquilo que ela entende e interpreta. Visto deste modo, parece que a honestidade e a prudência intelectuais andam de mãos dadas, pois, enquanto uma reconhece que suas conclusões podem estar enviesadas, a outra procura tratar tais reflexões com cuidado, com o objetivo de não dar margens a interpretações controversas.

Por fim, temos a humildade intelectual, que pode ser entendida como a consciência de que nunca haverá um conhecimento completo e fechado sobre determinado assunto. É o reconhecimento que o sujeito tem de que quanto mais se conhece, mais consciente de sua própria ignorância ele se torna. Sempre haverá algum novo conhecimento a ser descoberto que simplesmente poderá transformar os paradigmas já bem estabelecidos pelas ciências.

Presume-se que estes três fatores, honestidade, prudência e humildade intelectuais, devam fazer parte do pensamento cético. Por sua vez, o ceticismo deve estar presente no senso crítico dos sujeitos. Porém, por mais que a reflexão seja algo que ocorra naturalmente nas mentes humanas, o pensamento crítico-reflexivo, ao que parece, não é, imediatamente, instintivo. Para criaturas que já nascem preparadas para perceberem o mundo ao redor, reconhecendo padrões e evitando perdas e perigos, além de tornarem tarefas complexas em automáticas por meio de práticas prolongadas (Kahneman, 2012), é trabalhoso, de um ponto de vista cognitivo, suspender o pensamento corriqueiramente intuitivo e cotidiano, para se debruçar, reflexivamente, sobre algum tema. Ora, o pensamento crítico, para Elder e Paul (1996) é “a habilidade e disposição de melhorar o pensamento sistematicamente sujeitando-o à autoavaliação intelectual”. Já Bezerra, Schneider e Brisola (2017) irão escrever que o senso crítico implica em um “fator cognitivo que orienta nossa atenção e seleção informacionais, com base no conhecimento acurado de nossas próprias demandas, em meio ao infinito informacional não administrável”. Por não ser algo naturalmente instintivo, além de ser uma atividade cognitiva que requer trabalho e prática, crê-se que o pensamento crítico-reflexivo deva ser incentivado, continuamente, entre os sujeitos, ainda mais dentro da presente realidade de mundo desinformacional em que vivemos. E é neste mundo que a competência crítica em informação surge como disposição a ser estimulada.

Pode-se dizer que a competência crítica em informação é uma capacidade sociocognitiva orientadora de nossas demandas informacionais (Schneider, 2019), que leva em conta a reflexão e a crítica sobre o que se busca de informação, ou sobre as informações que param diariamente diante de nós. Schneider (2019) afirma que tal habilidade requer a suspensão da cotidianidade, onde o sujeito irá se esforçar para se concentrar “em um único problema ou conjunto de problemas, junto à abstração da espontaneidade, do imediatismo, dos juízos provisórios, das generalizações, da mimese, dos preconceitos”. Percebe-se que para tal coisa é preciso prática, de modo que o exercício da competência crítica em informação ganhe, quem sabe, contornos instintivos em nossas mentes. Ora, de muito praticar e treinar uma atividade, principalmente uma que seja laboriosa e complexa, pode ser que ela se torne espontânea na vida do sujeito. No entanto, tal espontaneidade adquirida com grande esforço, não deve ser livre de constantes reflexões e escrutínios, porque a possibilidade do erro e do autoengano estão sempre à porta. Como o apóstolo Paulo diria: “assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia” (Bíblia, 1 Coríntios, 10,12).

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