IV
Considerações
A competência crítica em informação é uma aptidão desejável para uma consciência crítica amadurecida, que nos dá condições de avaliar e ponderar o caótico e cacofônico mundo informacional que nos cerca. Crê-se que tal competência não deva ser exclusividade de um grupo ou classe social específicos, mas deve, sim, ser compartilhada e ensinada nas sociedades constituídas. Presume-se que aquele que, supostamente, tenha alcançado uma consciência crítica amadurecida, possua noção de sua responsabilidade para com o seu semelhante — não uma noção de superioridade hierárquica e tutora, mas, sim, uma atitude humilde, que vise o entendimento mutuo e estimule a cooperação e compreensão entre os sujeitos. Como bem afirma Paulo Freire (1987): “não há, por outro lado, diálogo, se não há humildade”. Portanto, o sujeito de hipotética consciência crítica amadurecida, deve ter o cuidado de considerar como seu semelhante qualquer estranho que, por acaso, tenha vindo parar em sua presença (Eagleton, 2010). Outra coisa que se deve levar em conta, é a questão de que a consciência crítica pode ser ineficaz caso esteja limitada a mente de uma só pessoa. Ora, como o indivíduo poderá perceber seus vieses e preconceitos se não há compartilhamento com o outro? Como o sujeito poderá descobrir novas ideias, se está enfurnado e trancado em suas próprias interpretações de mundo? A consciência crítica necessita do diálogo, pois “não existe ensinar sem aprender”, e “o aprendizado do ensinante ao ensinar se verifica à medida em que o ensinante, humilde, aberto, se ache permanentemente disponível a repensar o pensado, rever-se em suas posições (Freire, 2001).
No entanto, deve-se ter consciência de que a atração da “ilha de ignorância” é forte, e que o medo do desconhecido é uma realidade presente, inclusive para aquele que se diz maduro em seu pensamento crítico. Pode ser que a não vigilância de nossas próprias crenças, mesmo que bem fundamentadas em princípios éticos ilibados, nos leve a tomar decisões questionáveis diante de uma ideia proferida por algum desafeto nosso. Ora, afirmar que um argumento é mau ou mentiroso porque foi proposto por algum adversário, sem considerar o conteúdo lógico do que foi dito, “é raciocinar de modo falacioso” (Copi, 1978). Ou ainda pode acontecer que, ao se encontrar no meio de uma grande pluralidade de ideias, sejam elas boas ou ruins, o pensador crítico, que não se deu conta de que estava preso em uma bolha de pensamentos afins, possa agir com insolência e soberba. Daí a necessidade da prudência, honestidade e humildade intelectuais em um mundo de incertezas e desinformações, sempre procurando perceber e evitar aquela manifestação perniciosa de um ego inflado, que leva a pessoa a se sentir diferente e virtuosa por herança (Freire, 1987). Caso contrário, reflexões e críticas, mesmo que bem fundamentadas — e bem-intencionadas —, se declaradas, ou escritas, de modo leviano e descuidado, não se importando com o entendimento alheio, podem levar a um aprofundamento na crença em desinformações.
É bem verdade que King Jr. (2020) afirma que “uma mente rigorosa é afiada e penetrante, rompe a crosta de lendas e mitos e separa o verdadeiro do falso”, e que é raro encontrar pessoas que se engajem “em pensamentos rigorosos e sólidos”. No entanto, o reverendo também diz que “não devemos nos contentar em apenas cultivar uma mente rigorosa. […] Rigor sem sensibilidade é uma coisa fria e distante, que mantém a vida em um inverno perpétuo, sem a calidez da primavera” (King Jr., 2020).
Talvez, observando o que King Jr. afirma, pode-se arriscar dizer que a consciência crítica necessita de alguma dose de amor. Amor para compreender que nem todos irão querer abandonar a plácida e pacífica ilha de ignorância, e amor para perdoar as injúrias e difamações que recaem sobre aqueles que insistem em ensinar. Eagleton (2010) escreve que “o perdão é uma ruptura gratuita do circuito das equivalências exatas, ou do olho por olho e dente por dente, e, portanto, é uma antecipação da morte dentro das simetrias reguladas do presente”. O perdão mata a ofensa do ofensor. Bonhoeffer (2016) ainda escreve que “o amor não deve perguntar se é correspondido, mas procurar quem carece dele. Quem mais necessita de amor senão aquele que, sem amor, vive no ódio? Quem, portanto, seria mais digno de amor que meu inimigo?”. Pode-se considerar inimigo aquele não-amigo, que, alienado de sua própria consciência, massificado e massacrado por ideias e ideais autoritários, ataca aqueles que ousam, corajosamente, buscar verdades que podem fazer estremecer as estruturas de crenças há muito estabelecidas. O amor apresentado, tanto por Bonhoeffer quanto por King Jr. remete a uma insistência teimosa e resiliente de uma esperança imortal que, mesmo diante da opressão avassaladora, enxerga uma saída conciliadora e libertadora entre os semelhantes. Paulo Freire aparenta concordar com isso ao escrever que não há diálogo sem um profundo amor aos homens e ao mundo (Freire, 1987).
Certamente este não é um amor de condições românticas e condescendentes, que é destituído de coerência e firmeza, mas é, antes, uma força transformadora e fortificadora do senso crítico, dando a este a robustez de uma reflexão que leva em conta a constante inconstância da realidade objetiva e circundante. Pode ser que, por meio do amor, o pensamento crítico consiga resistir à frustração e ao desgosto de perceber que a tolice — forte aliada da desinformação — é um adversário implacável e, possivelmente, impossível de ser vencida. Talvez, uma consciência crítica, banhada no amor ao próximo, consiga criar pontes reconciliadoras entre partes discordantes, já que o amor é condição para diálogo, como afirmado por Paulo Freire, além de ser um fator repleto de paciência para suportar constantes revezes e desapontamentos.
De fato, é curioso falar desse sentimento tão paradoxal ao se abordar o pensamento crítico em mundo de desordem informacional. Em uma realidade assim — ou, talvez, em qualquer realidade — o amor, essa força de passiva agressividade, que se indigna com ofensas, mas que é apressado em perdoar, nunca negando a necessidade da justiça e da transformação social, seja um elemento necessário a um pensamento afiado, ou, como diria King Jr., a um pensamento rigoroso. Pode ser que o amor seja um caminho para o amadurecimento do senso crítico, que permite a aproximação e a reconciliação de gentes tão separadas e dilaceradas por enganos e artimanhas perpetradas, ora por líderes autoritários, ora por grupos interessados em se manter onde estão.
O amor, aliado ao senso crítico, pode nos levar a pensar e refletir sobre o nosso tempo e espaço no mundo, nos trazendo reflexões sobre as estranhas incongruências das relações humanas, assim como apontamentos sobre as nossas próprias contradições.
A mentira — ou desinformação, como preferir — já corre solta nas sociedades humanas por muitos e muitos séculos, e provavelmente continuará sua jornada ardilosa entre os seres humanos por muitos outros anos. No entanto, uma consciência crítica amorosa, que leve em conta o ceticismo com relação às suas próprias crenças, e tendo a competência crítica em informação como ferramenta, poderá, quem sabe, ser capaz de atenuar os efeitos perniciosos da desinformação, tanto em nós mesmos, quanto em nossos semelhantes.
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