Entre Dois Lugares

I

Era mais um dia de inverno, e a garoa fina, que vinha e ia, deixava o clima ainda mais frio e sonolento. Marcos Vinícius olhava da janela do café o movimento da rua: carros, ônibus, algumas bicicletas e gente andando pra lá e pra cá. Era uma típica tarde de terça-feira, um dia que ninguém dá muita atenção.

Saiu mais cedo do trabalho; não tinha muito o que fazer. Tomava o seu café lentamente e suspirava pensando na vida. E pensar era uma coisa que Marcos fazia demais. Imaginava se havia feito boas escolhas; se valeu a pena casar com Maria Helena; se deveria ter permanecido solteiro, ou se deveria ter tido a coragem de chamar, em sua adolescência, uma certa Vitória dos Santos para ir ao cinema. Marcos estava frustrado e tentava afastar esses pensamentos de sua cabeça, mas eles sempre voltavam. Não queria admitir, mas estava triste com seu casamento.

Dez anos de casado e sem filhos. Maria Helena até falava sobre crianças, mas algumas diferenças os faziam repensar se valeria a pena. Será que seria uma nova escolha que frustraria Marcos? Quem o via de fora não diria que aquele jovem rapaz, tomando seu café calmamente, estava profundamente angustiado.

De repente, sem mais nem menos, uma mulher bonita e bem apessoada se sentou a sua frente.

— Desculpe! Posso sentar aqui rapidinho? Pisei numa poça lá fora e meu salto tá todo molhado. — Marcos a olhou com atenção. Ela tinha algo de familiar.

— Vitória?

— Ei! Como você sabe… Ah! Meu Deus! Marcos!

— E aí? Estragou muito o sapato?

— Ah… acho que não. Mas ele é novo, né… Mas meu Deus… Como você está?!

— Além de estar curtindo esta tarde maravilhosa, estou bem. Saí cedo do trabalho, então está tudo uma maravilha!

— Quem pode, pode! E eu que tenho uma reunião daqui a pouco. Aí me acontece isso!

— Ah, foi só o sapato. Acho que ninguém vai notar. Mas… É sobre o que a reunião?

— Curioso! Só te respondo porque te considero! É para conseguir financiamento de bolsas de pesquisa na universidade em que trabalho.

— Olha ela! Acadêmica!

— E você? Que tem o privilégio de sair cedo do trabalho?

— Trabalho com projetos. Como está tudo encaminhado e tenho uma equipe muito boa, posso me dar esse luxo. Pelo menos, nessa semana. Daí vou ver se pego um cinema com minha esposa mais tarde. Tem que agradar, né! — Marcos deu um sorriso sem graça.

— Ah! Você casou? — Havia uma certa impressão de desapontamento em Vitória. Marcos percebeu isso. — Que bom! Já eu… ando livre, leve e solta. Acho que eu não teria muito tempo para me dedicar a um… casamento. Você sabe, né?

— Por que eu sinto que voltamos à nossa época de adolescentes?

— É… Engraçado né?

— Sim… engraçado.

— Olha, eu preciso ir. Foi muito bom te ver Marcos!

Vitória saiu do café tão rápido quanto entrou. Marcos ficou com uma sensação de vazio, que era recheada de um sentimento do que poderia ter sido. Talvez, se ele tivesse sido mais corajoso em sua juventude, as coisas seriam bem diferentes. Ou seriam iguais. Marcos saiu do café pensando nisso, e, com a cabeça nas nuvens, quase foi atropelado por um ônibus.

Foi por um triz, e parecia que sua alma tinha saído do corpo. Foi para casa com a estranha sensação de que um acidente real aconteceu; provavelmente era efeito do susto que tomou. Não contou nada para sua esposa, que também não parecia ligar muito para sua existência naquele momento.

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