II
Os bipes distantes começaram a incomodar os seus ouvidos. De repente seu corpo começou a doer e um apito irritante atravessou o seu cérebro. Abriu os olhos vagarosamente e enxergou dois vultos conhecidos. Era uma mulher e uma menina. Marcos teve uma sensação de alívio e outra de estranhamento. Sabia quem eram, mas, ao mesmo tempo, percebia que algo estava fora do lugar.
— Vi…Vitória… — o nome saiu com naturalidade, porém soou errado e certo. — Marina, minha filha… — Marcos teve um sobressalto ao dizer isso.
— Ah! Amor! Você… você voltou! Vou chamar o médico! — Marcos ficou sem entender. Ele não sabia o que estava fazendo numa cama de hospital. De repente a mãozinha de Marina segurou a de Marcos.
— Vai ficar tudo bem, papai.
— Meu Deus! Eu tenho uma filha…
De repente dois médicos entraram no quarto. Eram Aurélio Augusto e Norma Felisberto Vieira. Aurélio logo tomou a palavra:
— Como está a cabeça, Marcos?
— Dói muito. Mas o que estou fazendo aqui? O que aconteceu? E… E… Como eu tenho uma filha? E por que isso me parece… certo… ou… — Norma então o interrompeu:
— Marcos, você foi atropelado por um ônibus, e ficou em coma por dois meses. Foi um milagre você ter permanecido com vida. E olhe, é normal ficar confuso nesse momento. Graças a Deus você tem uma ótima esposa e filha, que te acompanharam por todo esse período.
— Mas… — Aurélio o interrompeu:
— Descanse, Marcos. Ficará tudo bem. Senhora, pode nos acompanhar até o corredor? — Vitória concordou com a cabeça.
— Olha, senhora dos Santos — começou Norma — Seu marido ainda ficará conosco por um tempo. Como disse para ele, é normal esse estado de confusão mental. Mas, de resto, pelo pouco que vimos, é possível que seu corpo se recupere logo.
— Isso vai passar logo, senhora! — Aurélio deu um sorriso esperançoso para Vitória, que logo voltou ao quarto.
Marcos não sabia o que pensar. Estava feliz em rever Vitória; feliz e confuso por saber, e não entender, que ela era sua esposa.
— Eu… eu te vi ontem, no café… — A voz de Marcos estava meio embolada.
— Café? Bobinho! E o que estávamos tomando?
— Você… Tinha pisado numa poça… Tinha uma… reunião… Era alguma coisa haver com bolsas… de estudo.
— Que sonho engraçado! E eu conseguia essa bolsa?
— Não sei. Você ficou meio estranha quando disse que eu ia… — De repente Marcos parou de falar.
— Você ia para onde?…
— Como é possível que eu tenha me casado com você? Logo meu amor de adolescência?
— Você está querendo me esconder algo desse sonho, não é? Seu bobinho!
— Eu… eu não estou escondendo. É que… é que parece que eu estava em outra vida… e agora estou nessa… Eu tenho essas duas lembranças… Ai! Minha cabeça!
Marcos sentiu uma forte dor na cabeça que o fez desmaiar, deixando Vitória desesperada.

