IV
Marcos acordou no hospital. Vitória estava dormindo numa poltrona, enquanto Marina estava encolhida no sofá do quarto. O apito na cabeça de Marcos continuava, no entanto, estava mais baixo. Apesar da confusão mental, ele se sentia mais desperto.
— Papai! — Marina correu até a cama. Marcos segurou a mão da filha.
— Você é linda como a mamãe. — Marcos sorriu docemente para Marina. — Você não deveria estar dormindo?
— Você dorme mais do que eu!
Vitória despertou e foi até aos dois. Estava bem abatida.
— Por que você me olha como um bobo apaixonado? Você não cansa?
— Acho que não, Vi. Acho que sempre serei esse bobo apaixonado. Mas tem uma coisa que não estou entendendo. Parece que eu… tenho duas lembranças. É como se eu percebesse duas vidas, sabe. E isso faz minha cabeça doer.
— Não se force tanto, amor. Mas… duas vidas?
— Promete que não vai ficar com raiva?
— Conte…
— Na outra vida eu não estou casado com você… E também não tenho filhos. Sou casado com uma tal de Maria Helena…
— E ela é bonita?
— Bem…
— Pela tua cara, é sim… Mas relaxa. Você está num hospital. Depois eu tenho minha crise de ciúmes.
— Mas o que eu sei é que estamos em crise… Olha, Vi, eu me sinto confuso e estranho. Estou feliz de estar aqui, mas também sinto a tristeza da outra vida. Isso tá doendo na minha cabeça. E tem esse zumbido que não para.
— Os médicos irão fazer alguns exames de manhã. Tudo vai ficar bem… Marcos? — Marcos havia desmaiado.

