V
Marcos acordou novamente em um hospital. Porém, dessa vez, o quarto era diferente. Maria Helena estava ali, visivelmente preocupada.
— Onde está minha filha? Ah! Onde estou? Mari? O que aconteceu?
— Você desabou no chão, Marcos. Os médicos fizeram alguns exames em você… Fizeram uma ressonância. Parece que tem uma coisa estranha acontecendo contigo.
— Como assim?
— Eles não sabem dizer. Só disseram que tua cabeça não está funcionando bem.
— Eu… eu estava em outro hospital… E vi….
— Sua outra vida? — Maria Helena estava séria. — Você é feliz lá?
— A-acho que sim… Mas sofri um atropelamento de ônibus.
— Uau… Isso é bem… dramático. Nossa filha… como ela é?
— Mari… eu não sei se devo…
— Tudo bem… Já entendi. Você é casado com outra. Você deseja isso, Marcos?
— Mari, acho que agora não é uma boa hora… ai! — O zumbido na cabeça de Marcos veio mais forte do que da outra vez. Ele desmaiou no mesmo instante, e logo em seguida acordou. — Mari! Marin…! Eu não sei! Eu não… — A fala agoniada de Marcos assustou Maria Helena, que correu para pedir ajuda.
Marcos não saiu mais de nenhum hospital. Sua mente começou a deslizar, continuamente, entre duas Realidades. Seu cérebro ficou sobrecarregado com lembranças e memórias de duas vidas diferentes, e o resultado disso foi um estado catatônico.
Maria Helena permaneceu muito tempo cuidando de Marcos. Imaginava que deveria ter feito mais. No entanto, fragilizada pelo estado deplorável de seu marido, acabou, por fim, o deixando. Por outro lado, é certo dizer que tal ideia também passou pela cabeça de Vitória. Anos cuidando de um homem que talvez nunca mais viesse acordar era algo realmente extenuante. Marina, já adulta, dizia para sua mãe o deixar. Mas Vitória insistia em cuidar daquele moribundo.
Vitória deixou Marcos quando este faleceu, no alto de seus cinquenta e nove anos. Nunca foi explicado exatamente o que aconteceu com aquele homem. Mesmo em total paralisia, seu cérebro continuava ativo, como se recebesse inúmeros estímulos ao mesmo tempo.

